Três Antagonistas: Rousseff, Silveira e Temer

 

João da Silveira

05/02/2016

 

Michel Temer é um antagonista infeliz. Ele persiste no esforço de entendimento com Dilma Rousseff. Eu fui dela um antagonista feliz: disse-lhe “não” já no nosso primeiro encontro, há quase meio século.

Éramos jovens. Éramos de esquerda. Foi em Belo Horizonte. Início de agosto de 1967, mês brumoso, frio, mês de queimadas e de secura no ar. Ar de revolução, de conspiração. Ela foi portadora de um comando para mim da organização Política Operária – POLOP. A ordem alterava o que havia acertado com a organização e, por isso, lhe disse “não!”

Partidos e organizações

Naquele tempo só existiam dois partidos políticos autorizados no país, a ARENA e o MDB. Aos partidos ilegais chamávamos ‘organizações’. A organização POLOP tinha me procurado no primeiro semestre do ano para que eu fosse candidato à presidência do Centro de Estudos de Jornalismo. Eles me ajudariam na campanha, me acompanhariam nas visitas às salas de aula.

Eu não era membro da organização. Era simpatizante. Entre os estudantes de jornalismo havia um que era membro. Por que não era ele o candidato? Explicaram que ele estava “queimado”. Os universitários não votariam nele. A organização precisava de sangue novo discretamente. Eu era sangue novo, era discreto, e não vi nada de suspeito no que tratamos até ali.

Ponderei que precisávamos de uma plataforma de campanha. “Sem problema!” Me perguntaram qual seria a plataforma e tudo que propus foi aceito. Tanta simpatia e afinação me animaram! Topei a candidatura e acabei eleito presidente. Então me avisaram que uma jovem iria me procurar; ela seria meu contato com a organização dali pra frente.

A jovem e a trapaça

Dias depois fui avisado que a jovem me aguardava entre as estantes da biblioteca, onde seríamos pouco vistos e conversaríamos com discrição. Ela tinha cabelos curtos, o rosto redondo sob óculos. Ela tirou de pequena pasta uma folha de papel e falou com definição: “É isso que você vai fazer à frente do Centro de Estudos.” Era nova plataforma; a da campanha vitoriosa tinha-se evaporado. Devolvi o papel: “Isso não faço.” Falei também com definição. Ela era militante; eu não.

A conversa que se seguiu foi cochichada, mas áspera: vãs repetições dos entendidos e dos desentendidos: eu não seria presidente não fosse pela organização; a organização não teria feito o presidente não fosse por mim. . . e por aí seguimos até que ela dissesse: “Você não está entendendo! Você será chamado para uma sessão de autocrítica perante a organização!”

Foi o fim da conversa. Havia algo de muito desagradável naquilo. Então respondi: “A organização trapaceia e eu é que faço autocrítica? Não deve ser: faz autocrítica quem trapaceia?” Dito isso, escrevi e lhe entreguei bilhete de renúncia à presidência do Centro de Estudos de Jornalismo da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.

A luta armada

E não nos falamos mais, nem a encontrei novamente, nem a organização voltou a me procurar. No final do ano, em seu IV congresso, a POLOP se dividiu. Parte dela optou pela luta armada contra o regime e adotou o nome COLINA – Comando de Libertação Nacional. No final de 1968, começaram os assaltos a bancos na região metropolitana de Belo Horizonte; era o COLINA “desapropriando” fundos para a revolução.

Em janeiro de 1969, fui preso junto com Marcos Rocha, meu chefe na redação da sucursal da revista Manchete, quando cobríamos um daqueles assaltos. Sob suspeita dos órgãos de repressão, fui retido incomunicável por dois meses, primeiro seminu numa espécie de canil da primeira DP, depois numa sala coletiva do DOPS, em seguida numa cela individual na Penitenciária de Neves, por fim, em prisão domiciliar por mais alguns meses, até a liberação sem ser processado.

Juiz de Fora (MG), abril 1972. Na primeira fila (da esq. para dir.): Marcos Rocha, José Raimundo Jardim Alves Pinto e Guido de Souza Rocha; na segunda fila: Ageu Heringer Lisboa, Fernando Pimentel (atual governador de Minas Gerais), Gilberto Vasconcelos e Dilma Vana Rousseff. DIÁRIO MERCANTIL/Arquivo Histórico de Juiz de Fora

Marcos foi solto e preso algumas vezes, até ser julgado e condenado em 1972. No julgamento de Marcos, descobri que a jovem que me contatara cinco anos antes era Dilma Vana Rousseff, casada então com Claudio Galeno de Magalhães Linhares, que era repórter do jornal Última Hora e amigo de Marcos, meu chefe na sucursal da Manchete.

Em 10 de janeiro de 1970, Claudio Galeno sequestrou um Caravelle da Cruzeiro do Sul em Montevidéu e escapou para Cuba.  Em 1970, Dilma foi presa. Em 1972, ela e Marcos foram julgados e condenados. Em setembro de 1973, deixei o Brasil.

Michel Temer chegou depois

Assim passamos com recíproca antipatia, Dilma e eu, pelos chamados anos de chumbo. Há pouco tempo, um consultor do Senado racionalizou para mim o comportamento de Dilma e da POLOP dizendo que já estavam operando sob a ótica da guerra e que mentir e trapacear é parte da guerra. Concordo, mas pergunto: guerra contra quem? Contra mim? Eu era um soldado em potencial daquela guerra. Comigo o trato tinha que ser de confiança e sinceridade, o que é próprio entre parceiros de luta. . .

Michel Temer chegou bem depois e formou com Dilma Rousseff um curioso par. Ela, mulher guerreira, obtusa, trapaceira; ele, homem cordato, redondo, sempre em busca de um entendimento que nunca vai haver; ela é presidente, ele é vice; ela é governo, ele não; ele faz o que pode para ajudar e até acha que governaria melhor do que ela. Só que, para que governe, ele terá de romper com ela no duro, o que ela não deixa, não aceita, enquanto faz gato e sapato dele, seu antagonista infeliz.

A Temer resta uma saída, só uma saída, que está em unir o PMDB em torno de si mesmo. Sem o PMDB unido, Temer não pode nada. Com o PMDB unido em torno dele, Temer dirá “Não!” a Dilma, pondo fim ao governo dela, o governo da insânia, da ruína do Brasil. Os brasileiros estamos de olho na convenção de março do PMDB, porque ela poderá ser a convenção das autocríticas e das recuperações pessoal, partidária e nacional.