GIULIANA VALLONE
TONI SCIARRETTA
DE SÃO PAULO

18/01/2016  02h00

As ações da Petrobras, que já foram as mais populares entre os pequenos investidores pessoa física, derretem desde o início de 2014, quando foi revelado o escândalo de corrupção pela Operação Lava Jato. No período, os papéis preferenciais (sem voto e os mais negociados) recuaram 69% -de R$ 16,75 para R$ 5,17 na sexta-feira (15).

Embora estejam baratas, as ações não são uma boa opção de investimento, segundo analistas do mercado. Isso porque não há perspectiva de recuperação no petróleo, a estatal reduziu brutalmente os investimentos, poderá ter produção e receitas menores e ainda corre risco de pagar indenização bilionária nos EUA.

“Analisando a companhia, não vemos nenhum motivo para o cliente se posicionar na ação”, diz Ricardo Kim, analista-chefe da XP Investimentos. “É importante que o investidor entenda que não é porque o preço caiu muito que ele vai voltar a subir.”

Segundo Roberto Indech, da Rico Corretora, a recomendação aos clientes que já tiverem papéis da companhia é manter o investimento neste momento. Para aqueles que não possuem as ações, o melhor é ficar longe delas.

Quem tem parte do FGTS aplicado na estatal, por outro lado, pode manter o investimento. A única opção é resgatar o dinheiro e migrá-lo para a conta vinculada do FGTS, que rende 3% mais a TR – 4,7% em 2015. No mesmo período, os fundos FGTS-Petrobras deram 4,54%.

Além da queda nos preços do petróleo, a estatal sofre com o alto endividamento, a maioria em dólar. A dívida da estatal soma US$ 130 bilhões, a maior das petroleiras.

A companhia tem queda nas receitas causada pela desvalorização do petróleo. O atual plano de negócios considera o barril de petróleo a US$ 45; na sexta (15), o valor chegou a US$ 28,94.

Rebaixada pelas principais agências de classificação de risco, a empresa terá dificuldades para captar recursos com os investidores.

Dificilmente, a Petrobras escapará de ter de fazer um aumento de capital nos próximos anos com a venda de novas ações, o que derrubaria ainda mais o valor dos papéis. Na semana passada, o diretor financeiro da estatal, Ivan Monteiro, descartou um aumento de capital pelo menos no curto prazo. A presidente Dilma, no entanto, não negou que possa fazê-lo.

NEGÓCIOS NOS EUA

Por enquanto, a Petrobras acredita que possa levantar recursos com a venda de participações e unidades de negócio. A meta é desinvestir US$ 14,4 bilhões em 2016.

Além de serem negociadas no mercado brasileiro, as ações da Petrobras também estão na Bolsa de Nova York, vendidas como ADRs (recibos de ações brasileiras negociadas nos EUA). No exterior, esses papéis tiveram desvalorização de 75%, sendo vendidos agora a US$ 3,27.

Se continuarem caindo, as ADRs correm o risco de deixar de serem listadas. Segundo a analista Luana Sigfried, da Raymond James, a Bolsa de Nova York exige que os papéis listados tenham valor acima de US$ 1.

Se o preço fica abaixo de US$ 1 por 30 dias, a empresa é notificada pela Bolsa. Em seguida, tem seis meses para elevar o preço -depois, a ADR é retirada da listagem. A partir daí, a Petrobras só poderia ser negociada no chamado mercado de balcão, com liquidez menor que nas Bolsas.

No Brasil, se o valor das ações ficar abaixo de R$ 1, elas deixarão de fazer parte do Ibovespa, o principal termômetro de negócios no país. Foi o que ocorreu com as ações da antiga OGX, petrolífera que fazia parte do grupo do empresário Eike Batista.

O QUE FAZER COM AS AÇÕES?

As ações estão baratas. Vale a pena comprar?
De acordo com analistas, não. Embora já tenham se desvalorizado muito, os papéis não dão sinais de que voltarão a subir no curto e médio prazo. E há outros ativos mais interessantes para quem quer aplicar dinheiro em Bolsa neste momento, afirmam

Já tenho papéis da estatal. Devo vender?
Depende da fatia investida. Se a Petrobras representar a maior parte do seu portfólio de ações, o ideal é se desfazer de parte desses papéis. Caso a exposição seja média ou pequena, é melhor mantê-las

Comprei as ações por um preço muito superior. Vale comprar agora para reduzir o custo médio e reduzir perdas quando elas voltarem a subir?
Não. Segundo especialistas, essa estratégia só vale a pena em casos de empresas com perspectiva de valorização futura, o que, por enquanto, não é o caso da petroleira

O que fazer com o FGTS em ações da Petrobras?
Como a alternativa é levar os recursos para a conta vinculada do FGTS, que rendeu só 4,7% em 2015, pode ser melhor continuar com as ações da Petrobras; no ano passado, esses fundos renderam 4,5%

E se a empresa quebrar?
Como é controlada pelo governo, o risco de quebra é o mesmo de o país ficar insolvente, segundo a visão das agências de risco. Antes de isso acontecer, a empresa seria socorrida pelo governo. Em caso de inviabilidade, as ações teriam queda intensa nas semanas anteriores, levando os investidores a perder praticamente todo o dinheiro aplicado

A estatal pode ser vendida?
Não seria fácil. Controlada pela União, teria de ser incluída no PND (Programa Nacional de Desestatização), que prepara as privatizações. A privatização também enfrentaria muita resistência

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