Santiago

Um negro magro, esbelto, era o decano dos presos ali naquela cela. Chamava-se Santiago. Ele estava lá quando o repórter chegou e continuou lá quando o repórter saiu. Esse, sim, era do Partido Comunista. Não escondia que era. O Partido não apoiava a luta armada contra o Estado de Segurança, mas seus militantes apanhavam assim mesmo. O Partido não precisava de clandestinidade, mas era ilegal. Todos os velhos partidos eram ilegais, todos, exceto a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partidos do Estado de Segurança Nacional. Por que, então, Santiago estava preso? Estava preso por ser comunista, uai! O comunismo é a besta-fera do Estado de Segurança e Santiago foi pego a distribuir panfletos no portão de um fábrica, em Contagem. Havia um clima de subversão em Contagem, entre os metalúrgicos da Manesmann…

Schroeder

Outro preso chamava-se Osmar, um Schroeder, de Itajaí, Santa Catarina. Só gente boa, esse Osmar. Ele queria conhecer o Brasil sem ter dinheiro. Saiu de lá como caroneiro. Levava mochila com algumas peças de roupa e uma cópia de O profeta, de Gibran Khalil Gibran. Rumou norte. À noite, por temor do incerto, buscava pouso em quarteis das Polícias Militares ou do Exército. Assim foi bem até que chegou em Belo Horizonte, no quartel da desconfiada Polícia Militar das minas e dos gerais. Ali ele dormiu por duas noites. Ali sua mochila foi revirada no segundo dia e ele preso e levado ao DOPS no terceiro dia. Ele achava que foi por causa do livro, do Gibran. E o repórter viu que estava na companhia de um homem de boa fé, um mochileiro louro, barbudo e desprovido de malícia, que buscava segurança nos quarteis em tempos de luta armada, preso então por suspeita de espionagem a serviço da subversão. Questões sobre ele foram remetidas aos serviços de segurança de Santa Catarina. Aguardavam resposta há mais de mês e o repórter seria liberado no dia primeiro de abril, bem antes que as respostas chegassem para a liberação de Osmar.

Outros

Outros presos passavam por aquela cela em rápida sucessão, sem prazo para dar aos colegas detentos residentes seus nomes e fichas. Chegavam no DOPS, eram duramente espancados e deixados na cela entre um espancamento e outro ou por poucas horas ou por uma noite, até que seus destinos, ou melhor, o próximo passo na via crucis de cada um deles fosse assentado. Um disse: “Venho do DEOPS de São Paulo”. Um disse e foi tudo que disse antes de ser chamado para interrogatório e pancadas. Outro disse outro dia: “Esta noite me levam para o Rio”. Um terceiro disse: “Vão me entregar para o governo da Argentina”. Assim é que a luta e o sofrimento não eram apenas locais, mas gerais, continentais. E as vantagens do Regime de Segurança sobre os que lutavam contra ele eram imensas. Isso era possível enxergar ali dentro.

Pragas

Donde vinham tantas baratas e ratos? A cela tinha sido um quarto escuro para a revelação de filmagens e fotografias de manifestações públicas. Quando desmantelaram o quarto escuro, retiraram os tanques e deixaram abertas as tubulações e ralos dos bueiros. No subsolo passava uma galeria de águas pluviais. Quando chovia, era possível ouvir a enxurrada subterrânea. Quando a enxurrada descia a encosta com seus ruídos e sopros ameaçadores, as pragas saíam enlouquecidas das tubulações e dos ralos. Ratos apareciam na cela com luz ou sem luz. Baratas saíam aos milhares se a luz estivesse apagada e corriam sobre tudo e sobre todos. Acesa a luz, via-se que as paredes estavam da cor delas, Santiago estava da cor delas, vinho tinto amarronzado. Elas cobriam tremeliças e vibráteis todos os corpos, todas as coisas. Acesa a luz, retornavam aos bueiros e tubulações, desaparecendo em segundos. Um espetáculo de se ver: nelas o pavor do dilúvio e pavor da luz humana, das baratas apavoradas. O Prontidão sempre acendia a luz com a grita dos presos…