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Kenneth Maxwell ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
O brasilianista britânico Kenneth Maxwell

SYLVIA COLOMBO
DE SÃO PAULO

10/01/2016  02h00

Para o brasilianista britânico Kenneth Maxwell, o Brasil falhou ao tentar buscar um papel internacional efetivo nos últimos anos, e agora sofre as consequências de uma crise internacional sobre a qual não tem controle.

Fundador do programa de estudos brasileiros da universidade de Harvard e autor de “A Devassa da Devassa – A Inconfidência Mineira: Brasil e Portugal 1750-1808”, Maxwell considera que o desgaste de governos latino-americanos há muito tempo no poder tem menos a ver com o fato de serem de esquerda, e mais por conta de suas “políticas populistas”.

Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista, realizada por e-mail.

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Folha – Qual sua opinião sobre as investigações sobre corrupção no Brasil?
Kenneth Maxwell – É certamente sem precedentes para o Brasil que tantos políticos, banqueiros e empresários estejam sendo responsabilizados. E, de maneira mais significativa, sendo presos, e em alguns casos considerados culpados e sentenciados.

O papel agressivo dos promotores e juízes no Brasil é algo novo e, certamente, um sinal de maturidade institucional.

Mas a investigação dos crimes, particularmente envolvendo a lavagem de dinheiro ou o ocultamento de ganhos ilícitos no exterior, é algo que está hoje em dia com mais presença no foco internacional, e o setor bancário internacional tem sido forçado a se transformar em algo muito mais transparente desde a crise financeira global.

Não é apenas o Brasil que está vendo as consequências dessa mudança. Mas isso faz com que contas brasileiras que estavam previamente escondidas na Suíça, nas ilhas Cayman, ou mesmo em Jersey, estejam muito mais expostas e na mira de investigações criminosas ou vazamentos.

Globalmente, há menos lugares para esconder fundos de forma confidencial hoje do que se fazia no passado. E isso tem sido um fator essencial na atual crise brasileira.

Porém, é importante lembrar que o PT não inventou a corrupção no Brasil, que a corrupção sempre foi bipartidária e que sempre o interesse público e privado foram ofuscados por políticos e empresários corruptos.

O sr. acredita que os ganhos sociais dos últimos 20 anos e a “nova classe média” estão em risco?
Sim, creio que os ganhos sociais dos últimos 20 anos estão em risco. E, desafortunadamente, por conta da profundidade da atual crise política, nenhum dos dois lados envolvidos nessa cruel batalha pelo poder em Brasília reconhecerá a verdadeira conquista coletiva que são esses avanços sociais. Na verdade, aqueles que ganharam mais, e que têm mais a perder, ainda devem falar.

O ano passado não foi um bom ano economicamente para o Brasil e o novo ano parece ainda menos promissor. Essa situação existe não por culpa do Brasil. O colapso do preço do petróleo é um exemplo. A desaceleração da China é outro. As ações dos EUA ao aumentar taxas de juros, também. O Brasil não tem controle sobre nenhum desses eventos. Mas todos eles afetam as perspectivas do Brasil.

Qual sua opinião sobre os protestos no Brasil em 2015, em comparação com os de 2013?
Minha impressão é que os protestos de rua no Brasil desde 2013, mesmo tendo certamente, em alguns momentos, sido vastos e a nível nacional, ainda assim estiveram amplamente compostos por gente com certo nível de educação, de entradas e de conforto social, ao menos se compararmos com o grande número de brasileiros. Basta ver a composição das multidões na avenida Paulista, em São Paulo, ou no Rio.

A verdadeira questão é se, e quando, a grande maioria dos brasileiros estará envolvida no processo político. Ou seja, os milhões de brasileiros que vivem nas margens, e particularmente aqueles que ganharam com as políticas sociais, com a estabilidade econômica e com o controle da inflação dos últimos 20 anos.

São esses que hoje correm o risco de voltar à pobreza e a privações das quais apenas recentemente tinham conseguido escapar.

Alguns governos de esquerda há muito tempo no poder na América Latina estão desgastados. O sr. crê que esteja havendo uma guinada à direita no continente?
O problema é menos o fato de se tratarem de governos de “esquerda” ou de “direita”, e mais de suas políticas populistas, o que certamente é o caso de Argentina e Venezuela. O Brasil escapou, em certo sentido, dos excessos desses dois vizinhos. O Brasil desenvolveu instituições mais fortes e resistentes.

É muito importante lembrar que o Brasil sempre foi uma nação de proporções continentais, com um sistema político diverso e fragmentado, com muitos detentores locais de poder, o que sempre fez com que fossem necessárias a conciliação e o compromisso para que um governo funcionasse num nível nacional.

Mas o principal problema foi que o Brasil fracassou na tentativa de encontrar um papel internacional efetivo. O Brasil rejeitou um acordo com os EUA para uma área de livre-comércio nas Américas, e encontrou sua alternativa no altamente problemático Mercosul. Os Brics provaram ser uma quimera e a China deixou de ser o mercado insaciável para as exportações locais de matérias-primas.

Os possíveis parceiros do Brasil na América do Sul, assim como o México, vem sentindo-se mais atraídos para a área de livre-comércio do Pacífico.

Como a crise brasileira vem sendo assistida desde os EUA?
O Brasil nunca recebeu atenção séria nos EUA e agora a atenção está dominada pela corrupção, e num menor grau às páginas de esportes, por conta do escândalo da Fifa, assim como pelos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Mas é possível antecipar mais cobertura para o Brasil no ano que vem, com o desenrolar das investigações do FBI, o caso da Petrobras e as alegações do uso de drogas por atletas olímpicos que impactarão os Jogos do Rio.

O Brasil certamente receberá mais atenção em 2016. Infelizmente, pode não ser o tipo de atenção que o país busca ou merece.

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