As polêmicas declarações feitas pelo ministro da Casa Civil foram autorizadas por Lula e Dilma e fazem parte de um movimento para criar uma alternativa à candidatura do ex-presidente em 2018. O problema é que a missão parece impossível

 

As verdades de Wagner

ESTRATÉGIA ENSAIADA

Debora Bergamasco

08.Jan.16 – Atualizado em 10.Jan.16

 

Não foi à toa que o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, começou 2016 se expondo, protagonizando trocas de farpas com lideranças que comandam o PT e se colocando como o principal porta-voz da presidente Dilma Rousseff. O comportamento do ministro nas primeiras semanas do ano traduz um projeto que vem sendo desenhado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde meados de 2014, mas que só agora, nas últimas semanas de 2015, obteve o apoio e a aprovação da presidente Dilma, durante uma discreta reunião com Lula no Palácio da Alvorada. Não é novidade que o ex-presidente tem o desejo de transformar Wagner em plano B para a sucessão de Dilma. O plano A e sonho dos petistas é o retorno do próprio Lula. O problema é que o avanço das investigações da Operação Lava Jato, a rejeição do PT, a impopularidade de Dilma e as crises política e econômica fazem do plano A nada mais do que uma miragem. E foi diante desse cenário que Lula e Dilma se entenderam nas últimas semanas do ano passado e definiram os passos para a concretização do plano B.

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ESTRATÉGIA ENSAIADA Wagner começou o ano dando declarações fortes e incorporando nas  redes sociais o papel de porta-voz do governo. As mensagens são dirigidas ao próprio partido e aliados

Durante a conversa, segundo interlocutores dos dois petistas, Lula lembrou que ele mesmo, enquanto chefe do Executivo, iniciou a construção de sua sucessora em 2007, primeiro ano do segundo mandato, formatando para Dilma, três anos antes da eleição, um rótulo de “gerentona” e “mãe do PAC”. O quadro atual, no entanto, é muito diferente. Lula deixou o governo com a popularidade em alta e ninguém poderia supor que a Lava Jato fizesse o estrago que vem fazendo nas fileiras petistas. Por isso, a tarefa entregue a Wagner pode ser considerada uma missão quase impossível.

O roteiro elaborado por Lula e Dilma e que deverá ser seguido pelo ministro da Casa Civil, segundo petistas e aliados de dentro e de fora do governo, prevê três movimentos distintos. O primeiro passou a ser adotado logo depois do Natal, quando Wagner começou a conceder entrevistas, fazer declarações públicas e a escrever em suas redes sociais incorporando os papéis de porta-voz do governo e uma espécie de voz da consciência do PT. São mensagens dirigidas basicamente ao próprio partido e aos aliados, visando uma difícil retomada na capacidade de articulação do Planalto. A mesma tarefa foi dada por Dilma a Aloisio Mercadante, atual ministro da Educação, no primeiro mandato de Dilma. Mas o fogo amigo petista inviabilizou a missão. Otimista, Lula aposta que a experiência de Wagner, que por oito anos governou a Bahia, maior colégio eleitoral do Nordeste e quarto maior do País, possa facilitar a tarefa.

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Foi com esse objetivo que o ministro reuniu-se com o vice-presidente Michel Temer na semana passada, tentando uma reaproximação com o PMDB. Os seguidos discursos de Wagner foram recalculados para tentar estabelecer um diálogo direto com militantes do partido e com os movimentos sociais. O objetivo é intensificar as críticas sobre medidas econômicas – o que agrada os petistas mais radicais – sem, contudo, comprometer o necessário ajuste fiscal. Foi autorizado por Lula e Dilma que, no dia 29 de dezembro, Wagner saiu disparando contra o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, logo que o economista foi substituído por Nelson Barbosa: “(Levy) veio com uma linha muito dura, sem diálogo, e as coisas não funcionam assim. Acho que a dose que o Levy aplicou, no lugar de ser remédio, virou veneno”, afirmou em entrevista à rádio Metrópole, de Salvador.

Ainda como parte desse primeiro movimento a tarefa que parece mais improvável é de procurar segurar no partido aqueles que debandam em razão do Mensalão e do Petrolão. O discurso acertado na reunião no Palácio da Alvorada deveria conter um mea-culpa petista e apontar novos rumos no sentido de novamente empunhar a bandeira da ética. Também foi autorizado por Lula e Dilma que Wagner declarou: “Quem nunca comeu melado quando come se lambuza”, fazendo referência aos petistas que se envolveram no mensalão e no Petrolão. O que nem Dilma e nem Lula imaginaram é que a reação das principais lideranças seria a pior possível. E que na mesma semana revelações feitas na Lava Jato colocariam o próprio ministro como suspeito de participar da lambuzada (leia quadro). A reação dos petistas fez com que Lula fosse a Brasilia para declarar que governo e partido não poderiam travar uma batalha pública. Na verdade, o ex-presidente fez apenas jogo de cena. Ainda na linha da defesa ética, Wagner assumiu pessoalmente o papel de contraponto ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

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A segunda etapa do plano traçado para Wagner, conforme alguns conselheiros do governo defendem, consiste em viajar mais pelo País ao lado de Dilma, portando boas notícias para os Estados. O assunto está sendo tratado com extrema cautela tanto no PT quanto no governo. Afinal, os interesses regionais muitas vezes prevalecem. O terceiro movimento está previsto para ser colocado em prática se a economia der sinais de reaquecimento. Caberá a Wagner compartilhar com Dilma o anúncio de pacotes de bondades tanto para os programas sociais como para empresários que precisam do apoio governamental para retomar seus investimentos. O cenário das próximas eleições ainda é confuso. Pragmático, Lula sabe muito bem que as apurações da PF e a impopularidade do atual governo podem melar suas aspirações como plano A, de Wagner como plano B e até do PT como cabeça de chapa. Para isso, tem até um Plano C, em que um dos irmãos Gomes – Cid ou Ciro – hoje no PDT, poderia ser o candidato e Wagner, ou algum outro petista “vivo”, sair como vice. Seja lá o que acontecer, caso não entre na disputa, esse esforço de Wagner pode servir ao menos para tentar tirar a gestão Dilma do completo ostracismo.

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Fotos: ROBERTO CASTRO; Sergio Lima/Folhapress; Glaucon Fernandes/Eleven/Folhapress; Pedro Ladeira/Folhapress

 

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