Situação Internacional

 

João da Silveira

 

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Seg. 26

BOLSONARO PRESIDENTE ELEITO : O GROUNDLING : O problema do Mais Médico parece que está sendo resolvido por Michel Temer sem maiores dificuldades. As coisas mudaram. Em 2013, os médicos formados no Brasil não queriam saber de pequenas cidades e comunidades. Em 2018, os médicos formados no Brasil não acham emprego nos grande centros e parece que ficaram também mais patriotas… Bolsonaro é contra a “certificação” de médicos formados no Brasil, num desencontro sensato com Mandetta, seu ministro da Saúde, insensato… Lá no Parlamento, o estilo direto de Bolsonaro no trato com os parlamentares incomoda as lideranças partidárias e os partidos do centrão… Lá no Itamaraty, as posições de Ernesto Araújo surpreendem seus colegas. Não deveriam surpreender por pelo menos duas razões. Primeiro porque as posições de Ernesto estão muito bem expostas no texto “Trump e o Ocidente”. Segundo porque não trazem novidades: a Revolução de 1964 teve a mesma justificação: a defesa do Ocidente contra o comunismo ateu… A nota de avaliação para Ernesto Araújo é máxima, é dez. Seu texto é mil vezes mais claro que os textos de Golbery do Couto e Silva. Mesmo sendo tão mais claro, é possível de se fazer as mesmas ressalvas tanto aos textos de Golbery quanto ao texto de Ernesto. Um exemplo. Eles afirmam que o cristianismo é a essência do Ocidente. Muito bem. Que seja. Mas não se pode esquecer que o Cristo que foi Jesus e o Deus do amor cristão são figuras orientais temperadas pelos ocidentais. Pode-se dizer, portanto, que o cristianismo é um orientalismo… Outro exemplo. Tanto o comunismo quanto a bomba atômica são conceitos longamente trabalhados no Ocidente. Por que, então, rejeitar e recusar o comunismo se ele, assim como o cristianismo, faz parte da tradição ocidental? Só por que ele é ateu? Ora, ser ateu no caso é rejeitar justamente aquele Algo que veio do Oriente, a Divindade única. Affirmatio est negatio omnis. O Ocidente, até Constantino, era politeísta… E a bomba atômica? Aqui, o seguinte. Alemães, usamericanos e russos desenvolveram a bomba atômica: Adolf Hitler tinha reservas quanto à Bomba; os usamericanos a adotaram e a usaram com sofreguidão; os russos a adotaram em defesa própria, dando assim origem a uma modalidade de guerra chamada fria… E o Brasil nesse quadro? Como fica? O Brasil abriu mão da bomba atômica, esse produto ocidental, ali por volta de 1990. No tempo de Golbery, tempo em que o Brasil ainda não tinha rejeitado a Bomba, havia até uma divisão de trabalho interessante: o Brasil cuidava da segurança nacional porque ainda não tinha a Bomba e os Estados Unidos cuidavam da segurança internacional contra o comunismo ateu porque tinha [a Bomba]. Uma beleza de divisão prática no campo cultural e simbólico, Brasil e Estados Unidos, irmanados, salvavam o Ocidente naquela conjuntura. Agora vemos no texto de Ernesto Araújo a mesma proposta: Jair Bolsonaro também sem a Bomba porque o Brasil não deu jeito e Donald Trump com a Bomba salvarão o Ocidente, com a seguinte ressalva derivada do texto de Ernesto: só Trump é Deus, porque, convenhamos, sem a Bomba, Bolsonaro não passa de um groundling….

 

DONALD TRUMP, O IMPÉRIO, A FRAUDE : Estará Trump a derrubar o Império? Ken Moak pergunta. Trump rasga acordos, arma guerras comerciais, monta conflitos geopolíticos, ameaça amigos e aliados, diz-desdiz-e-contradiz como um deus abraâmico, passa pito nos membros da NATO-OTAN por não pagarem quanto devem pagar, tudo como se o mundo estivesse a roubar a comida dos Estados Unidos. Na verdade, são os Estados Unidos que roubam a comida do mundo há 74 anos, diz Moak, exemplificativamente…. A economia dos Estados Unidos anda por certo viciada e fraudulenta. Rigged, gritou Donald. Na avaliação Nobel de Joseph E. Stiglitz, Donald está a agravar o rigging do sistema. (Economic inequality is higher in the U.S. than in virtually all other advanced countries. The American political system, coupled with high initial inequality, gave the moneyed enough political influence to change laws to benefit themselves, further exacerbating inequality. Breaking this feedback loop by curbing the power of money in politics is essential to reducing inequality and restoring hope.) E a solução anedótica que Stiglitz propõe – frear o poder do dinheiro sobre a política – certamente não vai acontecer no governo Trump, pois Donald é a própria encarnação do poder do dinheiro sobre a política…. Para se obter a contenção ou limitação do poder do dinheiro sobre a política, John Cassidy recomenda um patriota e não um nacionalista, um patriota como Paul Volcker que, aos 94 anos, acaba de publicar Keeping at it (Persistindo). Está em voga a distinção entre ‘patriota’ e ‘nacionalista’. Volcker é um patriota; Trump, um nacionalista. (Today, of course, the postwar model is facing an existential challenge. We have a protectionist bully in the White House; the world’s second-largest economy is a one-party state; and nationalism is on the rise from Warsaw to Rio. “The rising tide of progress toward open democratic societies—the world in which I have lived and served—seems to be ebbing away,” Volcker laments.). O globalista combate o nacionalista e o nacionalista combate o globalista, mas essa briga é puramente uma questão de estilo, pois tanto um quanto o outro podem ser imperialistas….

 

Ter. 27

BOLSONARO  PRESIDENTE ELEITO : André Barrocal descreve o futuro chanceler do Brasil, Ernesto Araújo, como “blogueiro admirador de Donald Trump” e relembra Celso Amorim, a quem David Rothkopf, num artigo cheio de piruetas históricas mito-poética, chamou de “o melhor chanceler do mundo”….

 

Dom. 2

TRUMP É DIVERSÃO : TRUMP JOGA COM OS MUNDANOS (Da Newsletter de Bill Bonner’s Diary desta semana) : POTUS toca guerra à General Motors, que dispensou 14 mil; a taxa de 4% de juros derrubará o mercado de ações (The whole world economy – in which the 10-year U.S. Treasury is a benchmark – has adapted to 2%. Two additional percentage points doesn’t sound like much… But on $230 trillion of debt, that’s more than $4 trillion in additional interest payments. The more the world borrows, the higher rates go… and the harder it is to keep up. And guess what? The biggest borrower on the planet has just doubled its demand for credit. Now, the U.S. federal government has lost control of its deficits, pushing up interest rates all over the world.); porque o longo prazo faz a diferença, os mortos batem melhor o mercado caindo na cova etcétera; no G20 em Buenos Ayres, POTUS encontra Xi; depois POTUS proclamará ‘Grande Vitória’ e os mundanos aplaudirão….