Onde e Como Fica a União Europeia?

 

João E. da Silveira

07/08/2017

 

BRICS, RIIC, CIRUS, BRICUS ou BRICUSA são grupos concretos e cenários que se formam e se abrem neste momento no horizonte da multipolaridade global. Deve-se perguntar aqui: e a Europa? E a União Europeia? A Rússia é parte da Europa, mas a União Europeia exclui a Rússia. Mesmo depois do fim do projeto comunista, a União Europeia não foi capaz de acomodar a Rússia em seu seio. O Pacto de Varsóvia desapareceu, mas a OTAN continuou por força dos Estados Unidos. Em contrapartida, os BRICS excluem a UE assim como excluem os EUA. Acontece que, para os Estados Unidos serem parte do BRICS, transformando-o em BRICUS, basta o governo americano trocar o atual roteiro de unipolaridade de um Francis Fukuiama e um Zbigniew Brzezinski pelo roteiro da multipolaridade de um Henry Kissinger. Isso não significa que os Estados Unidos deixarão de ser lobo para ser cordeiro. Os Estados Unidos continuarão lobos na multipolaridade, tendo apenas que abandonar a postura do might makes right atual para jogar em consonância com as normas de paridade do direito internacional. A mesma possibilidade de passagem de um lado para outro não existe para a Europa ou para a União Europeia, razão pela qual ofereço o raciocínio seguinte.

Os europeus ocidentais pensam que são um continente, quando na verdade são uma península e o diabo é que a Rússia está no pé largo, grosso, dessa península. Somente continentes têm heartland. A Europa, sem a Rússia, fica sem heartland, porque a Rússia é o heartland da península e também o heartland da Ásia. A Rússia é o R de todos os grupos listados acima. Daí, pode-se inferir o seguinte. Para que a UE ganhe lugar nesses grupos, será necessário deletar o R (delere Russia). Já se tentou isso algumas vezes. Napoleão tentou. Hitler tentou. A OTAN, ou seja, a Europa sob o comando dos Estados Unidos, gostaria de tentar, mas treme porque sabe que isso significa se destruir literalmente. Ora, quem quer destruir-se literalmente a não ser mulheres-e-homens-bombas? Hoje, um delenda Russia parece ainda mais difícil e de todo desaconselhável como repetiria Otto von Bismarck. A Rússia devolverá a guerra àqueles que a iniciarem e esse preço os Ocidentais ou Atlanticistas não estão dispostos a bancar, a menos que enlouqueçam de vez. Demonizar a Rússia e seu presidente é o máximo que podem fazer, mas isso não resolve. Isso só atrapalha.

A Europa precisa se entender com seu próprio passado. Países como Austrália, Brasil, Estados Unidos e a Rússia eurasiática são frutos da expansão europeia. E esses países não abrem mão da Europa. Há, pois, uma corrida pela Europa, corrida na qual a Rússia tem a vantagem da proximidade, por ser parte da península. Mas não são só os países fruto da expansão os que correm pela Europa. A Europa já dominou o mundo e todos têm interesse nela. Esse interesse não é só o dos que refugiam ou o dos que jogam futebol e tênis, mas também o de estudantes, o de investidores e de turistas consumidores. Vide como movem os africanos, os árabes, os persas, os indianos, os indonésios, os filipinos, os japoneses, os indochineses, os chineses. Todos querem conquistar a Europa numa espécie de retorno ou de ampliado blowback.[1]

E aqui, mais esta vez, a aproximação e parceria entre chineses e russos dão certa vantagem à Rússia e à China na corrida pela Europa. Daí assistirmos a um festival de siglas outras como OBOR ou BRI, EEU, SCO, NDB, AIIB, todas destinadas a organizar essa corrida. OBOR quer dizer, em inglês, One Belt One Road. BRI quer dizer The Belt and Road Initiative. EEU quer dizer Eurasian Economic Union. SCO quer dizer Shanghai Coorperation Organization. NDB quer dizer New Development Bank, o Banco dos BRICS. AIIB quer dizer Asian Infraestructure Investment Bank. Todas essas iniciativas e organizações visam a integração e o desenvolvimento da Eurásia.Integração e desenvolvimento exigem parceria e pacificação. A Eurásia é terreno minado e the damn fucking thing is, como se diz, si vis pacem, parabellum. Foi dito acima que China e Rússia levam certa vantagem na corrida pela Europa, mas a verdade é que os Estados Unidos não correm pela Europa: os Estados Unidos já dominam quase toda a Europa. A União Europeia é vassala dos Estados Unidos; diz-se até que ela é uma invenção da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos. Da Europa, os Estados Unidos só não dominam a Rússia, que se recusa a lhes prestar vassalagem.

A Rússia, em parceria com Irã e Síria, faz a ponte entre três casas de força (powerhouses) da Eurásia: a China e a Índia na parte de lá, a Alemanha na parte de cá. Dentre esses quatro países, a Rússia tem se escalado para batalhas diplomáticas e guerras antiterroristas de pacificação. Além de sua localização intermédia ela também dispõe do trunfo nuclear. Sua atuação na Syria, marcada por determinação e infinita forbearance (tolerância) a inomináveis provocações, é demonstração da sua capacidade. Para os russos, a Primavera Árabe, o golpe de Estado na Ucrânia, as iniciativas TTIP e TPP de Barack Obama foram iniciativas destinadas a bagunçar o desenvolvimento da Eurásia. A Rússia evitou a armadilha da Ucrânia e enfrentou militarmente a Primavera Árabe na Síria. A Rússia evitou o olho por olho, dente por dente, quando a Turquia derrubou, traiçoeiramente, um jato seu na Síria, em novembro de 2015. Sete meses depois, em junho de 2016, Vladimir Putin ajudou Recep Tayyip Erdoğan a se defender do golpe de Estado que armaram contra ele. A Rússia resolveu assim também a armadilha turca, dando tempo e motivo à Turquia para seu reposicionamento estratégico.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, temos os Estados Unidos a pivotear entre o Atlântico e o Pacífico, entre os mares Báltico e Mediterrâneo, o Golfo Pérsico e o Sudeste Asiático etc., no afã de segurar seu mundo. Outro dia, Donald Trump retirou unilateralmente os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, abrindo-se solitário para novas e melhores negociações. Até agora, que eu saiba, nenhum outro país propôs novas negociações. Ainda outro dia, Trump retirou unilateralmente os Estados Unidos das iniciativas TPP (Transpacific Partnership) e TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership) da época de Obama. Essa decisão foi vista na Rússia como exemplo de outro fracasso americano em bagunçar o desenvolvimento da Eurásia. Em junho último, na sua primeira viagem internacional, Trump foi à Arábia Saudita onde fez a dança das espadas e criou uma estranha OTAN Árabe, que se esboroou dez dias depois na crise com o Qatar.

Evidentemente, os Estados Unidos não vão cruzar os braços diante de tais tropeços. Neste mesmo instante em que escrevo, os Estados Unidos aprovam novas sanções contra a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte, sanções destinadas principalmente a cortar as transações energéticas entre Rússia e Irã de um lado e os países da UE do outro. Ou seja, os Estados Unidos estão a definir e a determinar a política energética da UE, o que não deixa de ser uma aberração internacional a incomodar os próprios europeus, pois as novas sanções contra a Rússia são contra todos eles, europeus. A península europeia é o troféu dessa corrida mundial e as escolhas dos políticos europeus serão decisivas para qualquer desfecho: ou se integram na Eurásia em parceria com a Rússia ou continuam vassalos dos Estados Unidos no seio da OTAN. O que não se enxerga para o futuro é que recuperem sua antiga autonomia e senhoragem.

 

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[1] .  https://www.thenation.com/article/blowback/ Veja também a trilogia de Chalmers A. Johnson, Blowback, 2000; The Sorrows of Empire, 2004; and Nemesis, 2007.