De BRICS de RIIC de CIRUS de BRICUS ou BRICUSA

 

João E. da Silveira

07/08/2017

 

O acrônimo BRIC para Brasil-Rússia-Índia-China (mais tarde BRICS com o acréscimo da África do Sul) foi criado em 2001 pelo economista Jim O’Neil, chefe de pesquisa em economia global do grupo financeiro Goldman Sachs. A identificação do grupo foi feita para orientar investimentos mais lucrativos no mercado global. Note-se: economista britânico e grupo financeiro americano: note-se que a teoria dos BRICS não nasceu dos BRICS: note-se por último que a teoria não nasceu deles, mas fez sucesso entre eles ao longo duma década, até se reconhecerem e se formalizarem como grupo de atuação e de cooperação. A noção desse grupo tem, portanto, um fundo genuinamente capitalista de mercado e um fundo geopolítico.

Outros acrônimos ou grupos de investimento criados por bancos e seus consultores financeiros: The Next 11 : Bangladesh, Egito, Indonésia, Iran, South Coreia, México, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Turquia e Vietnam. Criado em 2005, também pelo banco Goldman Sachs. CIVETS : Colômbia, Indonésia, Vietnam, Egito, Turquia e África do Sul. Fundo criado em 2011 pelo banco HSBC Global Asset Management, baseado em agrupamento proposto pela Economist Intelligence Unit em 2009. EAGLES (Emerging and Growth-Leading Economies): China, Índia, Brasil, Indonésia, Coreia do Sul, Rússia, México, Egito, Taiwan e Turquia. Grupo de 10 países criado pelo BBVA Research. MINT : México, Indonésia, Nigéria, Turquia. Grupo de países a serem observado, segundo Jim O’Neil, em 2013. TIMPs : Turquia, Indonésia, México e Filipinas, inventado em 2013 por Turner Investments. MIST : México, Indonésia, Coreia do Sul, Turquia, outra composição atribuída a Jim O’Neil.

Acima, grupos de investimento. A seguir, dois grupos de desinvestimento. The Fragile Five : Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia. Não um acrônimo, mas um aviso feito pelo banco Morgan Stanley, em 2013, sobre os países que mais sofreriam com a retirada de investimentos. A Índia aparece entre os frágeis, ainda não a Rússia. The Fragile Ten : Brasil, Colômbia, Chile, África do Sul, Peru, Coreia do Sul, Tailândia, Rússia, Singapura e Taiwan. Em 2015, Morgan Stanley coloca mais cinco países na lista dos Fragile Five, entre eles a Rússia. O Brasil aparece nas duas listas. A Índia aparece na Fragile Five de 2013 e desaparece da Fragile Ten De 2015.

Assim operam os bancos e seus consultores no mundo da especulação financeira. De todos os agrupamentos já feitos, o grupo BRICS ganhou valor especial porque grandes potências econômicas entreviram nele seu valor geopolítico. Ele nasce de miradas no mapa-múndi, ou seja, quem vê o mapa-múndi, vê a posição natural desses países no desenho geopolítico, na esfera global. Em 2009, os BRIC começaram a realizar cúpulas anuais e, em 2010, formalizaram-se BRICS numa espécie de clube político ou aliança, que não chega a ser nem um bloco econômico nem uma associação formal de comércio, mas clube ou aliança que tem a clara intenção de transformar o maior poder econômico de cada país em maior influência geopolítica. Os BRICS configuram-se assim como mais uma expressão da multipolaridade mundial. Por enquanto quem está fora dos BRICS são os Estados Unidos, que podem e devem estar dentro, formando BRICUS.

Em setembro de 2015, o banco Goldman Sachs encerrou seu Fundo BRIC, porque a queda no preço das commodities o tornou pouco rentável. Daí veio a pergunta se os BRICS iriam acabar. Não, evidentemente que não, pois o BRICS deixou de ser apenas um agrupamento especulativo para ser também um agrupamento geopolítico. Em outubro de 2016, Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade de Columbia em Nova York, respondeu que não, porque a China não deixará. O BRICS passou a ser uma construção institucional, maior que o G-7 jamais fora, “excelente veículo para Pequim se movimentar geoeconomicamente para além de sua vizinhança asiática”. Jim O’Neil, por sua vez, destacou também o papel da China, por ser tão grande, duas vezes o tamanho das outras quatro economias juntas. Na primeira década desde a criação do acrônimo, os países do grupo cresceram mais do que ele esperava. Agora três deles estavam em recessão: Brasil, Rússia e África do Sul. A recessão por si mesma não diminuía a importância do grupo, mas o grupo precisava manter seu propósito coletivo e participação na governança global.

Agora, o que aconteceu mais especificamente com o Brasil e com a Rússia, de 2014 para cá? O acompanhamento de Dilma e de Vladimir de outubro de 2015 a agosto de 2016 mostrou Vladimir a reagir com energia e vigor inesperados contra a guerra econômica e as ameaças militares movidas pelos Estados Unidos e pela UE e vai se saindo vitorioso. A guerra econômica e a pressão militar visavam a queda de Vladimir, mudança de regime na própria Rússia, mas isso não aconteceu. Segundo estudos divulgados recentemente pelo Grupo Awara do economista finlandês e wittgensteiniano Jon Hellevig, a Rússia emerge das sanções e das ameaças bélicas mais forte que antes. Em julho último, os Estados Unidos adotaram novas sanções contra a Rússia destinadas a bloquear as transações energéticas dela com a União Europeia.

Dilma, por sua vez, reagiu insuficientemente aos problemas econômicos oriundos da China (queda no preço das commodities) ou dos EUA e da UE (Quantitative Easing ou liquidez abundante do dólar e do euro, a dita “guerra cambial”) e saiu-se derrotada. Calculou mal se é que calculou. Acho até que não calculou, pois Dilma já era cabeça feita, cabeça de Kunhaporu. Como economista malformada, incompleta, ela embalou-se na conversa contra cíclica do gasto deficitário e mui feminino na expectativa hipnótica de alevantar o Brasil. Não houve contra o governo Dilma nem sanções econômicas nem ameaças e ataques militares. O governo Dilma caiu em 31 de agosto de 2016 por sua própria insuficiência teórica e prática. O governo de Michel Temer prosseguiu tal como Dilma com a gastança deficitária de tal forma que a recuperação da economia brasileira vai ficando para depois de 2018.

Neste momento o B dos BRICS é só figuração. O S da África do Sul também é só figuração. Esses dois países fizeram parte da mítica “volta do mar” ou “carreira da Índia”, um dos eixos da primeira economia global que existiu do século XVI ao XIX, até o advento das ferrovias transcontinentais e dos canais de Suez e do Panamá. Com essas inovações reestruturantes dos fluxos intercontinentais mais o desenvolvimento da aviação, a volta do mar perdeu relevância. Hoje, África do Sul e Brasil não subsistirão um sem o outro numa volta do mar rediviva. Para isso o Brasil precisa ressurgir, tornar-se uma casa de força e soerguer consigo a África.

A queda do B e do S reduz o BRICS na prática a RIC, o núcleo duro asiático do grupo. E dos conflitos no Oriente Médio ascende continuamente o Irã, estando até programada sua adesão à SCO – Shanghai Cooperation Organization. Com a adesão do Irã, o grupo RIC passará na prática a RIIC. Nada de novo foi dito até aqui, mas a renovada hostilidade do governo Trump contra o Irã parece se contrapor justamente à sua ascensão. No já longínquo mês de dezembro de 2016, Marcos Troyjo enxergou no horizonte a superação do BRICS pelo grupo CIRUS, China—Índia—Rússia—Estados Unidos, como novo grupo multipolar de governança global. Isso foi logo depois da eleição de Trump, então visto pelos alucinados democratas como “parceiro,” “comparsa,” ou melhor, “boneco” de Vladimir Putin. Na ocasião imaginei que, com a entrada dos Estados Unidos e com a recuperação econômica do Brasil, o grupo CIRUS passaria a ser BRICUS, de Brasil—Rússia—India—China—Estados Unidos—Africa do Sul. Poderia até mesmo evoluir para BRICUSA, com a entrada nele da Austrália. Os acontecimentos dos últimos seis meses, todavia, não sustentam essa evolução inovadora e positiva. Trump está cada vez mais amarrado pelo Deep State (Estado Profundo) americano e, no Brasil, o governo Temer cava cada vez mais fundo no seu poço. Os acontecimentos estão a indicar uma evolução tradicional e sombria, que caracterizo na próxima seção como uma corrida pela Europa.