Contra a Unipolaridade

 

João E. da Silveira

07/08/2017

 

Os Estados Unidos, a propósito, enveredaram pela trilha unipolar como já vimos, convencidos da sua superioridade, da sua excepcionalidade, da sua modalidade exemplar. Superioridade, excepcionalidade e bonitezas mil lhes davam a prerrogativa de conduzir o mundo para o caminho do bem. Bem que era, obviamente, eles mesmos, deles mesmos, o bem da Ordem Americana. Eles tanto gostaram da situação quanto se iludiram em se ver como o centro do mundo. Acontece que o centro não se segura, já tinha dito o poeta W. B. Yeats no entre guerras. E nós ainda não temos um centro, acrescentou Kenneth Clark nos anos 70 com algum pessimismo, em seu famoso documentário sobre a civilização ocidental, sobre o “materialismo heroico” dessa civilização e sobre a falência intelectual e moral do marxismo, produto integral dessa civilização.[1] Assim íamos nos entendendo até que Bill, George e Barack foram alçados ao poder e acharam que não, sim, os Estados Unidos eram mesmo o centro do Universo.

Do governo de Bill Clinton (1993-2001) até o de Barack Obama (2009-2017), passando pelo de George W. Bush (2001-2009), os Estados Unidos praticaram uma política externa de promoção da democracia e de regime change com vistas a fazer o mundo à sua imagem e semelhança, no exercício de todo o seu vigor imperial. Uma política bi-partidária unipolar. A descrição mais soberba dessa política é a de Karl Rove, secretário de George W. Bush, com seu cínico desafio aos estudiosos do Império assim como Ron Suskind e eu: “Somos um império agora e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto você estuda essa realidade – judiciosamente, por certo – aí agiremos de novo, criando outras novas realidades que você poderá estudar também, e assim é como as coisas fruirão. Somos agentes da história…e vocês, todos vocês, ficarão apenas com seus estudos sobre o que fazemos.”[2] O resultado desse ativismo imperial tão soberbo pode-se ver nos Balcãs dos anos 1990; no Iraque e no Afeganistão de 2001 até o presente; na Líbia, no Egito e na Síria desde 2011; na Ucrânia, desde 2014. O resultado, uma sucessão de guerras inconclusivas e invencíveis, amplos killing fields, tudo a indicar que outros impérios estão também a agir e a criar suas próprias realidades.

Unipolaridade implica superioridade para um e subalternidade para todo o resto. No mundo unipolar, os Estados Unidos são o hegemon dos hegemons. Obviamente, só a multipolaridade interessa aos demais ocupantes da cúpula mundial, que também, diga-se, não são numerosos. Neste momento estão resumidos a três: Estados Unidos, Rússia e China, mas seu número pode ir a quatro e não passará de dez. Dizemos isso com base na lei de ferro da oligarquia e seu efeito sobre os agentes da política mundial. Que agentes são esses? Ora, como dizia Hegel ou como diz Kissinger, são as grandes potências, os impérios, e as cabeças que os representam.

O Brasil sempre se aliou aos Estados Unidos, mas a unipolaridade obviamente não lhe convém. Não convém porque o Brasil tem vontade de ser não só um poder soberano como também hegemônico na sua região. Até aqui a hegemonia brasileira tem sido fruto simplesmente do seu tamanho, da sua localização na Terra, da sua gravidade. Isso é intuitivo pelo menos nos brasileiros que sabem ler o mapa-múndi. E ao falarmos de vontade e de intuição nos inserimos no âmbito da filosofia moderna pós-kantiana e neoplatônica de Arthur Schopenhauer. Nesta compreensão filosófica, a vontade é cega e irracional, mas também há espaço, ainda que pequeno, para a razão, para a racionalidade que vem, que resulta de cabeças humanas bem cultivadas, que se tira da ciência do conhecimento.

Não somos muitos os que sabemos ler o mapa-múndi. Ser muitos, aliás, não é precondição indispensável para se lançar um país nas alturas. Basta um estadista auxiliado por alguns aliados de gênio. A propósito, foi isso o que assistimos na Revolução de Independência dos Estados Unidos com Ben Franklin, George Washington, John Adams e Thomas Jefferson; vimos novamente, na Guerra Civil americana, com Abraham Lincoln e William Henry Seward; vimos na Revolução Soviética com Vladimir I. Lenin; vimos na Segunda Guerra Mundial com a tríade Stalin, Roosevelt e Churchill, e parece que vemos agora, no retorno do mundo à multipolaridade, com Vladimir Putin e Xi Jinping. São alguns exemplos.

Quanto ao Brasil, a dificuldade é que a sociedade brasileira ainda não produziu nem esse estadista e seus poucos aliados de gênio. Por isso foi broxante aquela cena de Dilma a passar em branco pela oportunidade, em 28 de setembro de 2015, de aliar-se a Vladimir na defesa de Bashar al-Assad, visto que ela era presidente do B dos BRICS e a guerra na Síria configura momento importante da marcha para a multipolaridade na política mundial. Evidentemente, Dilma não estava preparada, nem ela nem os políticos brasileiros, para vislumbrar tal oportunidade. O Brasil vai perdendo mais esta vez o bonde da História, o que mostra o quanto este país vai mal e o quanto nossas cabeças políticas são ainda toscas. Cabeças de Kunhaporus e Abaporus.

 

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[1] . Kenneth Clark, Civilisation, a Personal View, New York, Harper & Row, 1969.

[2] . “We’re an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you’re studying that reality—judiciously, as you will—we’ll act again, creating other new realities, which you can study too, and that’s how things will sort out. We’re history’s actors…and you, all of you, will be left to just study what we do.” Citado por Ron Suskind, em 17 de outubro de 2004, em artigo sobre o governo de George W. Bush.