Multipolaridade: PMDB, PSDB, PT, PMDB

 

João E. da Silveira

07/08/2017

 

Em 1989, depois de 16 anos antropológicos e não antropofágicos nos Estados Unidos, retornei ao Brasil com a tese de que, para o desenrolar da contenda interamericana (antecipada por Hegel), o país chave não era Cuba nem a contenda era capitalismo vs. socialismo, mas, realisticamente falando, era capitalismo vs. capitalismo. O socialismo então existente dava nome ao chamado Segundo Mundo; aquele mundo era um sonho, uma fantasia, um artifício, um engodo na boca de políticos inescrupulosos como fora o georgiano Joseph Stalin. O que existia de fato era e é o capital, ou seja, são as relações de produção e de troca. Isso posto, o país chave para o fruir da contenda interamericana deixava de ser Cuba com seu rijo capitalismo de Estado e sua pequena envergadura caribenha e passava a ser o Brasil com toda a sua envergadura continental sul-americana e seu conservadorismo. Escala não é tudo, mas importa. Conservadorismo não é revolução, mas importa também.

Em dezembro de 1991, caiu a União Soviética. A ideia socialista arrefeceu (esfriou) mundo afora, abrindo-se mais espaço para se falar de contendas do tipo capitalismo vs. capitalismo. Deixamos de lado, portanto, a ideia do socialismo e a substituímos pela ideia mais objetiva de que o mundo político é realmente multipolar, porque várias são as constituições elementares e vários os Estados relevantes. Em 1994, inscrevemos o tema da multipolaridade mundial no novo programa doutrinário do PMDB, onde redigimos o seguinte.

4.2.1 – Na primeira metade do século XX, a política externa e de defesa do Brasil decorria de preocupações regionais na América do Sul. Depois da Segunda Guerra Mundial, prevaleceu o alinhamento com os Estados Unidos, num cenário bipolar consagrado pela Guerra Fria. Hoje [1994], desarticulada a bipolaridade, o Brasil precisa repensar toda a sua política externa e de defesa, propondo-se novas hipóteses de cooperação e conflito. Neste novo cenário, a multipolaridade é um fator a ser aproveitado.

A multipolaridade é fator a ser aproveitado. Diante desse texto, é preciso perguntar: o que foi que o PMDB fez desde 1994 com ou pela multipolaridade mundial? A resposta é nada, absolutamente nada, pois nem a multipolaridade nem a necessária contenda interamericana são ideias orgânicas do PMDB. E não sendo orgânicas nem no PMDB, nem noutros partidos, nem no mundo acadêmico brasileiro, nem em lugar nenhum do Brasil, pode-se dizer que a contenda e a multipolaridade não existiam nem existem por aqui. Não, mas devem existir e esses são pontos de honra nas minhas teorias sobre o Brasil no mundo. São ideias e conceitos que apreendi no estrangeiro e trouxe comigo para semear em Brasília. A semeadura não vingou até aqui; o campo parece absolutamente estéril.

É bom lembrar que em janeiro de 1959, Fidel Castro, em visita à Venezuela, esteve com o presidente eleito Rômulo Betancourt, a quem disse que estava em busca de petróleo pois pretendia fazer um jogo com os gringos. Betancourt recusou entrar em tal jogo. Fidel foi em frente e fez da pequena Cuba, economia menor que a da cidade de São Paulo, o país mais destacado da chamada América Latina na segunda metade do século XX. Imagine-se agora o que teria sido das Américas se o Brasil tivesse entrado também numa tal peleja. Aliás, andou perto de fazê-lo a seu modo e sob o comando de Jânio Quadros e Afonso Arinos, que, mal começaram e mal ensaiaram sua política externa independente, caíram, por causa dos maus cálculos de Jânio.

Então, perguntamos ainda: quem foi que colocou esse texto no programa doutrinário do PMDB? A resposta: foi Sérgio Porto da Luz, ex-comandante da Marinha de Guerra brasileira, instrutor na Escola Superior de Guerra e consultor da Câmara dos Deputados, e eu. O texto acima citado foi composto por nós dois. Sérgio e eu estudávamos sem paixão ideológica as questões estratégicas nacionais. Sérgio veio a falecer poucos anos depois e eu deixei a Fundação Pedroso Horta ao final de 1995 e me afastei do partido. Ficou a percepção de que as questões estratégicas nacionais não são prioridade entre nossos políticos, que não exploram as oportunidades e espaços que se abrem nesse sentido. Nós sabíamos que “aproveitar a multipolaridade” era o mesmo que corrigir a Ordem Americana, consertando-a aqui dentro e concertando-a lá fora. Consertar com “s” e concertar com “c”. Essa é, em síntese, a abordagem bifronte da grande questão nacional do Brasil, sobre a qual voltaremos a tratar mais adiante.

No PMDB, a multipolaridade ficou posta programaticamente, ainda que não lhe seja orgânica. No PSDB e no PT, a multipolaridade não é nem orgânica nem muito menos programática. Em 1998, o PMDB cedeu a tucanos e petistas a hegemonia política no país, quando decidiu não lançar candidato à presidência da República e apenas atuar no Congresso Nacional como âncora da governabilidade. Tucanos e petistas também não fizeram nada pela ou com a multipolaridade. Celso Amorim, petista tardio egresso do PMDB, até que tentou algumas coisas como chanceler do governo Lula e sua política externa “ativa e altiva”. O país entrou por força de seu tamanho, localização geográfica e gravidade no grupo dos BRICS, mas o arco de alianças e parcerias trabalhado por Celso Amorim não foi além das repúblicas bolivarianas, da irresoluta rodada de Doha, do Haiti, e até do Irã (instado o governo brasileiro a atuar neste caso por Barack Obama e descartada sem cerimônia sua atuação por Hillary Clinton)…quando a curva da multipolaridade mundial passa é pela Índia, pela China, pela Rússia e pelos Estados Unidos. É com países desse porte que o Brasil precisa tratar e transar os melhores negócios, mas há uma timidez e um cordialismo secular dos políticos brasileiros, uma inibição desde que descartamos nossa cabeça imperial com a Proclamação da República e ficamos só com nossas cabeças de Abaporu.