Fim da União Soviética

 

João E. da Silveira

07/08/2017

 

Em dezembro de 1991, os presidentes das repúblicas eslavas Boris Yeltsin da Rússia, Leonid Kravchuk da Ucrânia e Stanislav Shushkevich da Bielorússia encontraram-se na Floresta Belovezh e decretaram o fim da União Soviética. No fundo foi mesmo Yeltsin o grande responsável por tal decreto, pois sem ele não haveria o encontro na floresta. Reagan e Gorbachev tinham preparado o terreno com a suspensão da Guerra Fria. Os russos, naquele afã secular de emular e superar os Estados Unidos, viram chegada a hora de extinguir o sistema soviético, excessivamente burocrático e duro. Adotaram pouco depois um programa urgente de privatizações, em busca da condição mais flexível e mais dinâmica de uma sociedade burguesa aberta. Assim, a União Soviética acabou-se por decreto, por decisão de seus próprios dirigentes. O decreto de dezembro de 1991 foi aprovado em janeiro de 1992 pelo parlamento russo, a Duma, a mesma Duma que Yeltsin extinguiria no ano seguinte com tiros de canhão…

O mundo logo achou que os Estados Unidos foram o grande vitorioso da Guerra Fria – dessa peculiar modalidade de guerra entre potências nucleares equivalentes. Acaba que foi mesmo uma vitória bastante peculiar, pois, se nas guerras convencionais (não nucleares) os vitoriosos desarmam por via de regra os vencidos, nessa “vitória” os americanos sequer pensaram em desarmar os russos. Pelo contrário, os Estados Unidos ajudaram a Rússia a manter bem seguro o seu arsenal nuclear, o que implicou o recolhimento das armas nucleares (ou desarmamento nuclear) das demais (ex)repúblicas soviéticas, como, por exemplo, da Ucrânia. Esse fato nos revela quatro coisas extraordinárias.

  • Revela que a “vitória americana” na primeira Guerra Fria não foi verdadeiramente uma vitória americana, nem propriamente o fim final da Guerra Fria. Foi antes uma suspensão temporária das animosidades, suspensão essa promovida pela extraordinária boa vontade alcançada entre o beligerante (warmonger) Ronald Reagan e o pacifista Mikhail Gorbachev, durante seus vários encontros e negociações. A suspensão das animosidades criou relaxamento propício para o desmanche da União Soviética por parte dos próprios governantes soviéticos e por razões próprias lá deles, próprias de sua experiência histórica com aquele capitalismo de Estado excessivamente rígido.
  • Revela que o não desarmamento nuclear da Rússia explica porque, duas décadas depois de suspensas as animosidades da Guerra Fria por Reagan e Gorbachev em dezembro de 1987, voltou-se (a partir de 2007) a viver quase que naturalmente “nova” Guerra Fria, em razão dos avanços da OTAN sobre o Leste Europeu e Ásia Central e das reações de rechaço dos russos. Vive-se naturalmente essa “nova” Guerra Fria porque a paridade bélica nuclear continua lá, intacta, e os russos passaram a reagir (to pushback) aos avanços e a dizer Nyet para o Fiat Isso a partir de 2007.
  • Revela porque Vladimir Putin, presidente de um país 13a categoria econômica (PIB), cujo orçamento bélico é 10 vezes menor que o orçamento bélico americano, é capaz de falar nyet ao imperador Barack Obama, presidente do país de primeira categoria econômica (PIB). O poder nuclear nivela.
  • Revela porque Dilma Rousseff, presidente de um país de nona categoria econômica (PIB), maior, portanto, que a economia russa, não foi capaz de pelejar com Barack Obama, por carecer não só do poder nivelador como também de cérebro. Vê-se, porém, que o poder nuclear será suficiente, mas não necessário em meio a tantos poderes nucleares. O decisivo mesmo é ter cérebro suficiente, o que Dilma mostrou não ter em sua cabeça de Kunhaporu.