Além da Conjuntura: Brasil, Rússia e EUA

 

João E. da Silveira

06/08/2017

 

Brasil e Rússia são dois grandes países. Estão entre as grandes potências e têm naturalmente ambições que se justificam por seus portes. São polos hegemônicos regionais. A Rússia é o maior do mundo em território e o nono em população. O Brasil é o quinto maior tanto em território quanto em população. Os Estados Unidos da América são terceiro em população e o quarto maior país em território. A expansão territorial do Brasil para oeste e a da Rússia para leste foram coetâneas, tendo ambas começado na segunda metade do século XVI. O Brasil de então era, na verdade, o Império Português, que se espandia sobre a América do Sul e se estendia com seus entrepostos por toda a costa africana, toda a costa sul da Ásia, Goa na Índia, Macau na China, até Nagasaki no Japão. O momento de maior afirmação dos brasileiros no cenário mundial ocorreu no século XVII, com a guerra de expulsão dos holandeses do Nordeste do Brasil. Dentre os muitos feitos daquela guerra, é importante lembrar que a cidade do Rio de Janeiro libertou Luanda, em Angola, das mãos dos holandeses, sem o que eles não seriam expulsos do Nordeste. Por ocasião da independência em 1822, o Brasil tinha mais ou menos a configuração territorial atual, enquanto a Rússia, tendo já ocupado toda a Sibéria e reclamado para si o Alasca em 1784, era uma expansão territorial duas vezes maior que a brasileira. Naquele momento, o Brasil era oito vezes maior que os 13 Estados dos Estados Unidos e a Rússia era mais de 18 vezes maior.

Quanto a território, os Estados Unidos são mais novos que Rússia e Brasil. Sua marcha para oeste foi o prosseguimento da expansão inglesa, que começou em 1607 com o estabelecimento na América do Norte da primeira colônia britânica (James Town, Virgínia). Em 1776, havia cerca de 30 colônias britânicas nas Américas. Treze delas proclamaram-se independentes, formando os Estados Unidos, e prosseguiram com a expansão para Oeste. Compraram da Espanha a Florida, da França a Louisiana, anexaram o Texas em 1845, compraram do México a Califórnia e outros territórios em 1848 e da Rússia o Alaska em 1867. O projeto era anexar também o Canadá, mas os ingleses não o permitiram.

William Henry Seward (1801-1872), governador de Nova Iorque, senador, candidato à presidência da República pelo novo partido Republicano e secretário de Estado nas administrações de Lincoln e Johnson, foi figura marcante da expansão territorial e econômica dos Estados Unidos no século XIX. Seward foi leitor assíduo de Francis Bacon, um dos primeiros teóricos do Império Britânico. Seu lema nas operações políticas, inclusive no combate à escravidão, era: ‘Organização! Organização! Nada, mas organização!’ O império, para ele, estava calcado numa lei da Providência, a de “que o poder imperial caminhou sempre para oeste nos últimos três mil anos, [assim sendo] até que as civilizações renovadas e as decadentes desse mundo se encontrem nas costas do Oceano Pacífico”. Em 1853, ele deu o seguinte conselho na disputa por poder e hegemonia mundiais: “Abra uma estrada de Nova Iorque a São Francisco. Ponha em cultivo seus domínios. Multiplique seus navios e mande-os para o Oriente. A nação que mais extrair da terra materiais e provisões, a nação que mais fabricar e mais vender de suas provisões e fabricações para outras nações, essa nação será com certeza o grande poder da terra.” Sobre Estados Unidos e Rússia ele propôs o seguinte em 1861: “Rússia e Estados Unidos podem permanecer bons amigos até que, tendo avançado meio globo em direções opostas, se encontrem e se saúdem na região onde a civilização começou.”

Walter LaFeber sintetizou em quatro pontos as sugestões concretas de Seward para a obtenção da “hegemonia mundial” por parte dos Estados Unidos: “1) adotar tarifas altas para proteger as pequenas indústrias e atrair trabalhadores estrangeiros; 2) oferecer as terras públicas rapidamente e a baixo preço; 3) obter mão de obra barata, especialmente trabalhadores asiáticos; 4) ligar todo o continente com canais e ferrovias.”[1] Na virada do século XIX para o XX, a economia americana tornou-se a maior do mundo em PIB, superando a do Reino Unido, mas a Inglaterra continuou hegemônica até a década de 40 com seu capital financeiro. Em 1940, Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram também a hegemonia financeira, superando a posição da Inglaterra. A ascensão dos Estados Unidos foi, portanto, espetacular: da incerta independência proclamada em 1776, chegou a maior potência mundial em 1945 com vitória na Segunda Guerra em aliança com a Rússia, que fazia parte, então, da União Soviética.

No clássico The Power Elite, C. Wright Mills resumiu a ascensão dos Estados Unidos nos seguintes termos: “A elite americana entrou na história moderna como uma burguesia praticamente sem oposição. Nenhuma outra burguesia, antes ou depois, teve as mesmas oportunidades e vantagens. Sem vizinhos militares, eles ocuparam facilmente um continente isolado cheio de recursos naturais e imensamente atraente para o trabalho produtivo. Dispunham de poder constituído e justificação ideológica. Contra a restrição mercantilista, tinham o laissez-faire; contra os planters sulistas, impuseram o industrialismo. A Guerra Revolucionária pôs fim às pretensões coloniais de nobreza, com muitas desapropriações e fuga dos colonos leais [à Inglaterra]. O levante jacksoniano com sua revolução popular pôs fim ao monopólio da descendência pretendido pelas famílias da Nova Inglaterra. A Guerra Civil quebrou o poder e o prestígio dos senhores do Sul. O ritmo do desenvolvimento capitalista tornou impossível o desenvolvimento e persistência de uma nobreza hereditária. Nenhuma classe governante fixa, ancorada no campo e florescente em glórias militares, pode conter na América o empuxo histórico do comércio e da indústria, subordinando a si a elite capitalista—como os capitalistas foram subordinados, por exemplo, na Alemanha e no Japão. Nem pode esse tipo de classe governante em qualquer parte do mundo conter aquela dos Estados quando a violência industrializada entrou para decidir a história. Veja a sorte da Alemanha e do Japão nas duas guerras mundiais do século vinte; e, até mesmo, a sorte da própria Inglaterra e sua exemplar classe governante, com Nova York tornando-se a capital econômica inevitável e Washington a inevitável capital política do mundo capitalista ocidental.”[2] Isso foi publicado em 1956, no auge do poderio americano.

A Rússia também saiu vitoriosa na guerra tendo sofrido, todavia, enorme destruição. Os Estados Unidos saíram praticamente ilesos, com sua economia a gerar mais da metade do produto bruto mundial. A disputa por hegemonia continuou entre os aliados, ensejando a chamada Guerra Fria, que pautou as relações mundiais ao longo de 40 anos. Em dezembro de 1987, Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev chegaram a entendimentos políticos e suspenderam a Guerra Fria. Em 1991, extinguiu-se a União Soviética, despencando-se a Rússia em gravíssima crise existencial. Os Estados Unidos se viram, então, na condição de única superpotência global e a política mundial tornou-se unipolar pelos próximos 15 anos. Em 2007, Vladimir Putin reafirmou a independência da Rússia com um pronunciamento em Munich, sinalizando o início do fim da unipolaridade. Desde então assistimos ao repique da Guerra Fria em condições globais bastante alteradas, condições a que damos o nome de multipolaridade.

[1] . Walter LaFeber, The New Empire: An Interpretation of American Expansion, 1860-1898, Ithaca, Cornell University Press, 1963, pp. 25-6, 26-7 e 30 para as citações.

[2] . C. Wright Mills, The Power Elite, London-Oxford-New York, 1956, pp.12-13.

 

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[1] . Walter LaFeber, The New Empire: An Interpretation of American Expansion, 1860-1898, Ithaca, Cornell University Press, 1963, pp. 25-6, 26-7 e 30 para as citações.