Na ONU : Dilma, Barack e Vladimir

 

João E. da Silveira

03/08/2017

 

2015, segunda-feira, 28 de setembro. Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU). Primeiro falou Dilma Rousseff, depois, Barack Obama, depois, Vladimir Putin. A ONU fazia 70 anos. Dilma tratou do aniversário e criticou (como sempre fez) a representatividade do Conselho de Segurança, tratou da catástrofe dos refugiados no Mediterrâneo e do terrorismo, falou sobre os governos do PT e sobre a democracia brasileira, e pediu solidariedade ao mundo na solução de questões globais.

Barack tratou da liderança sempre benevolente dos Estados Unidos nas mais variadas frentes mundiais, aquela coisa de nação excepcional, da América indispensável, que leads and must and will lead… Subentendia-se das palavras de Obama que o que o mundo tem mesmo de agradecer tanta benemerência e seguir o American way, the American fiat, the American Order, a ordem unipolar.

Vladimir falou dos 70 anos da ONU e de um mundo pior sem ela, mostrou satisfação com a lógica operacional do Conselho de Segurança, tratou de soberania nacional e de parceria nas relações internacionais, criticou o might makes right da Ordem Americana e contrapôs sua visão multipolar do mundo à visão unipolar de Barack Obama. Foi evidente contestação, como a dizer: нет (nyeht), há vários caminhos; o Американский путь (Amerikanskiy put’) não é o único.

Vladimir ficou nove anos sem aparecer na AGNU. Nos cinco anos como presidente do Brasil, Dilma esteve cinco vezes lá e seus cinco discursos não tiveram realmente impacto perceptível. A fala de Vladimir teve, pois se contrapôs à fala de Barack concretamente.

Dilma e Vladimir: apesar do conteúdo e relevância tão díspares, seus dois discursos convergiam em um ponto: na grave questão dos refugiados.

Dilma falou: grande parte dos que aventuravam nas águas do Mediterrâneo e erravam pelas estradas europeias proveem do Oriente Médio e Norte da África, onde países tiveram seus estados nacionais desestruturados por ações militares ao arrepio do Direito Internacional, abrindo espaço para o terrorismo. Essa frase colocava Dilma ao lado de Vladimir naquele momento, mas Dilma parou ali, sem nada cobrar daqueles (Estados Unidos, França, Inglaterra…) que perpetravam as ações militares ao arrepio do Direito.

Vladimir falou: veja o Oriente Médio, o norte da África. O povo queria mudança, mas ao invés de reformas sofreram agressiva interferência estrangeira, que resultou na destruição de suas instituições e estilo de vida. No lugar de democracias triunfantes, ganharam violência, pobreza e desastre social. E os direitos humanos? Ninguém liga para os direitos humanos daquela gente. E eu não posso deixar de perguntar aos que causaram essa situação: vocês compreendem agora o que foi que fizeram?

Ainda no dia 28, Vladimir informou a Barack que dentro de dois dias a Rússia entraria no combate ao terrorismo na Síria ao lado de Bashar al-Assad, o que de fato aconteceu em 30 de setembro de 2015 e alterou o rumo da guerra.

Aí veio curiosa pergunta: por que Dilma Coração Valente Rousseff não se aliou a Vladimir Putin na defesa de Bashar al-Assad? Como seria isso possível? Ah, na contingência do momento isso não seria possível por causa do despreparo e da fraqueza de Dilma e de Lula, aperreados consigo mesmos, alheios ao mundo exterior.

Eu já acompanhava a atuação política dela e de Lula em face da hipótese de que ela não terminaria seu segundo mandato. A aprovação de seu governo em setembro de 2015 estava pouco acima de 10% e escândalos de corrupção fluíam do Palácio do Planalto, continuamente. Hipótese semelhante não cabia para Vladimir. A aprovação dele estava acima de 80% e os escândalos de corrupção por lá ocorrentes não fluíam do Kremlin. Dilma e Vladimir, paralelos vivos, ricos contrastes, Brasil e Rússia, duas grandes potências muito distintas. E eu que já fora estudioso da Rússia (e da ex-União Soviética) achei que era hora de voltar lá e acompanhar também a Vladimir em busca de comparações interessantes, daquele dia 28 de setembro até a queda de Dilma Rousseff, até a realização da profecia de que ela não retornaria mais à AGNU.

Assim surgiu O Projeto Dilma e Vladimir e Michel O acompanhamento dessas três figuras passou por quadro fases demarcadas pelo andamento da política no Brasil, cumprindo-se a profecia no dia primeiro de setembro de 2016, com a ascensão definitiva de Michel à presidência:

Dilma e Vladimir, de 28 de setembro a 04 de dezembro de 2015;

Dilma (Michel) e Vladimir, de 05 de dezembro a 12 de maio de 2016;

Michel (Dilma) e Vladimir, de 12 de maio a 31 de agosto de 2016;

Michel e Vladimir, de 01 de setembro de 2016 a…

Do lado de cá, Dilma e Michel se completam na subjetividade, alheios ao resto do mundo. Do outro lado é só Vladimir-Vladimir-Vladimir-Vladimir firme a lidar com Barack Obama e Donald Trump, Recep Tayyip Erdoğan, Benjamin Natanyahu, King Salman, Hassan Rouhani, Bashar al-Assad, Angela Merkel, François Hollande e Emmanuel Macron, David Cameron e Theresa May, Xi Jinping, Shinzō Abe, Narendra Modi e muitos outros chefes de Estado ou de governo, em jogos de guerra e de paz.