‘O governo atual não vai até 2018’

Alexa Salomão e Ricardo Grinbaum

10 Outubro 2015

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Foto: Evelson de Freitas/Estadão

Para o economista e sócio da MB Associados, País não tem estratégias, como nos anos 80, para suportar anos de crise

 

Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros já viu muitas crises, mas nada como a atual, em que tudo parece dar errado e não ha saída. “Hoje o que está matando é o sofrimento sem horizonte”, diz. O grande nó a ser desatado, para ele, é crise política e haverá troca de governo antes da próxima eleição. “Não há como conviver com esta falta de estabilidade”. A seguir trechos da entrevista que concedeu ao Estado.

Com qual cenário o sr. trabalha hoje?

Da série nunca antes nesse País, temos hoje a existência simultânea de quatro coisas, que nunca vi antes com essa dimensão. O cenário internacional não é dramático, como em 2008, 2009, mas não nos ajuda. O tom geral é que a economia global está desacelerando. O segundo eixo é uma crise política. Terceiro é uma crise macroeconômica clássica. Queda no crescimento, no investimento, no emprego. Inflação alta. Taxas de juros sideral. O pior de tudo é o enorme desarranjo nas contas públicas, com o destaque de que esse desarranjo, junto com os juros altos, estão levando a relação entre o PIB (Produto Interno Bruto) e a dívida bruta para 70%.

Em quanto tempo?

No ano que vem.

Por que 70% é um número tão importante?

Podia ser 80%. Não é número em si, mas a velocidade com que ela sobe. O quarto item é uma crise microeconômica. Afeta vários setores que empurram o Produto Interno Bruto para baixo, principalmente a indústria pesada. Nós já vimos todos esses problemas mais de uma vez, mas tudo isso junto, ao mesmo tempo, eu não lembro. Não podia estar assim. A presidente acabou de ser reeleita. O que nos parece é que a crise está sendo e será mais profunda do que anteciparam. Nossa impressão também é que ela vai ser mais rápida. Alguma coisa vai ter de acontecer até a eleição municipal do ano que vem.

Alguma coisa…

Esse alguma coisa é a busca, é a letra de música sobre Sampa.

Alguma coisa por que a situação é insustentável?

Sim. A situação é politicamente insustentável. É pouco provável que o governo atual vá até 2018. Como é que não vai, não sei dizer. Mas não consigo olhar essas quatro coisas e acreditar que nada aconteça. A situação econômica do ano que vem é muito ruim. Nós aqui (na MB Associados) revisamos nossa projeção para 1,5% negativo de PIB. Neste ano (2015) é menos 3%. Será menos 1,5% sobre menos 3%.

O Brasil recuou quantos anos?

Não fiz esta conta, mas fiz outra. A única coisa que vai seguir bem é o agronegócio. Pegando 2013, 2014, o que praticamente já ocorreu em 2015 e a projeção para 2016, teremos um crescimento de 15% no agronegócio e uma queda de quase 1,5% no PIB, acumulada. Temos, assim, uma queda da renda per capita de 5,5%, 6%.

É empobrecimento?

Empobrecimento muito grande. O que pode ajudar a melhorar é o setor externo. Nós projetamos um saldo comercial de US$ 15 bilhões neste ano e de US$ 30 no ano que vem. Neste ano, mais por causa de queda na importação. Mas no ano que vem, a gente acha que as exportações vão crescer razoavelmente bem. Se a gente tiver um horizonte político mais consistente e melhora na área fiscal – ainda mais porque a recuperação nos Estados Unidos está mais lenta – o câmbio pode estabilizar num valor muito mais baixo que os R$ 4. Chutativamente, eu diria que dá para ficar em R$ 3,50, o que é ótimo para o exportador.

É ótimo para exportador?

Ótimo. Quem não conseguir com isso é porque não é para exportar mesmo. Os ganhadores desse processo são setores onde o Brasil tem legítima vantagem comparativa, naturais, com as matérias-primas, e construída, como fez a Embraer. Também beneficia as multinacionais. As menores sempre pagam o pato. Mas quem está dançando são os campeões nacionais – com exceção do JBS que é o único que não está desmontando. Para esse grupo, muito apoiado no campeonismo, na amizade colorida com o PT, com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o troço está assim. A ficha não caiu para todo mundo. Tem construtora, por exemplo achando que vai sair deste momento igual. Se sair, vai sair assim (sinal com os dedos indicando que será menor).

E como fica inflação?

Ela vai cair, mas por um golpe da recessão.

Mesmo com este câmbio?

Sim. Os grandes setores da indústria estão em queda, puxando o PIB para baixo. É complicado repassar aumentos. Aí vai ter espaço para rebaixar os juros: diminui a conta do Tesouro, tirando pressão do custo da dívida e as empresas podem respirar um pouco.

Assim, o cenário 2017 pode não ser tão dramático?

Acho que não será. Estou considerando que algo vai acontecer na política – não é possível ir nesta lenga-lenga até 2018. Se não tiver mudança, não tem confiança e, assim, o câmbio não desmonta. É preciso desfazer esse novelo. A agenda é clara. Tem três frentes. A primeira é resolver o fiscal com um conjunto politicamente viável e economicamente saudável – não pode ser um choque de economista, na linha corta isto e aquilo. Aí vamos esbarrar na crítica de que estão tirando direito social. Um programa fiscal que faça sentido precisa mexer em coisas relevantes que não cortem direitos. A mais óbvia é fixar a idade de aposentadoria. É um escândalo se aposentar aos 52, 55 anos.

Qual seria a idade?

Aí é questão de negociar. O ponto básico é convergir a 65 anos. Também vai ter que ter, mesmo, uma revisão no tamanho do estado. Não adianta dizer que isso é moralismo pequeno burguês. Não é. É gestão mesmo. Mais gestão e menos roubalheira. Mais governança. Menos fraude. Tem dinheiro envolvido, que vai desde convênio que não existe, bolsa fajuta, bolsa pescador que não existe. Até os governistas admitem que metade pode ser totalmente falsificada. As novas bolsas de aposentadoria rural.

Isso seria mais como uma sinalização de mudança?

Sim, uma sinalização, mas pode ir além. Se for verdade que neste ano já foi liberado algo como R$ 2 bilhões de bolsa pescador, e que metade delas é fajuta, é R$ 1 bilhão. Não é troco, não. Por fim, temos de fazer a revisão da regulação para as concessões voltarem. Aí sim, você consegue reduzir os encargos do Estado.

Se não mudar a regulação, concessões continuam patinando?

Continuam patinando. Tem uma máquina montada para ter projeto mal feito. Faz correndo para ter anúncio e fica uma porcaria de projeto. Com essas mudanças e um cenário político consistente, eu acho que a gente pode voltar ao rumo. Hoje o que está matando – e 100% das pessoas concordam – é sofrimento sem horizonte. O mais desesperador quando você está mal – desempregado ou num negócio que vai mal – é não ter horizonte.

Todas as mudanças que o sr. mencionou dependem de decisões políticas…

Sim.

Então o pré-requisito é a mudança política…

Sim. O meu pré-requisito é uma rearranjo político mesmo. Exatamente como vai ser, não sei. Se vai ter impeachment ou não. Se ela cansar e pedir demissão. Se haverá um acordo. Não sei como vai ser.

E se não tiver mudança?

Bom, se não tiver mudança política… mas eu acho que vai ter. Eu acho que ela vai ser mais bem organizada ou pior organizada. Eu não consigo conceber a repetição do modelo Sarney (presidente José Sarney, que permaneceu no cargo durante profunda crise econômica).

Por que?

É muito tempo, com uma crise profunda. Que é diferente do período do Sarney. Antes dele foram construídos uma série de instrumentos. Havia correção monetária, formas de convivência com desequilíbrios…

O Brasil não consegue mais conviver com desequilíbrios por muito tempo? É isso?

Não tem como. Desaprendemos, por exemplo, a lidar com inflação alta. Não tem defesa contra esse negócio. A mulher não se aguenta como está hoje, por três anos e um trimestre – estamos em outubro ainda. Isso é impossível. Não há como conviver com esta falta de estabilidade. É muito forte o que vem por aí. Nas nossas projeções, a taxa de desemprego vai para 10% neste ano. Nós já estamos em 8,5%. Projetamos uma perda de 1,5 milhão de empregos. Estava em 1 milhão até setembro. As pessoas estão minimizando coisas importantes. Lava Jato: está tudo parado numa cadeia de produção há um ano. O fim da era PT vai ser muito desorganizado.

E como ficam as empresas?

Vamos ter algumas quebras grandes até o final do ano.

Quebra mesmo?

Algumas é quebra mesmo, o que hoje quer dizer que vão entrar em recuperação judicial. Os escritórios de advocacia estão cheios de empresas avaliando isso. E o estrangeiro que quer entrar, porque quer comprar ou por insegurança, vai esperar a coisa explodir mesmo.

Vamos ter um rearranjo?

Sim. Um rearranjo muito grande na economia e também na estrutura de poder.

Fala-se se muito nas heranças dos últimos governos. Que herança vai ficar de tudo isso?

Genericamente, podemos dizer: com todos os seus problemas, o Collor (Fernando Collor de Mello) abriu a economia. Fernando Henrique construiu as bases do combate à inflação, mas ele teve uma visão de Estado. A do Lula é ter feito a inclusão. É mérito dele. A inclusão mudou o Brasil. Saímos de um mercado pequeno e fomos para um mercado de massa. Agora, não tem relação com o governo, mas vai ficar a herança da governança – que é o efeito da Lava Jato.

Vai diminuir a corrupção?

Vai diminuir. Não vai acabar. Mas vai aumentar o risco de se meter a mão e vai se valorizar (o combate à corrupção). Também vamos ver o rearranjo do Estado, que precisa suportar a inclusão, mas ao mesmo tempo a responsabilidade fiscal e acabar com o sonho campineiro de ser uma Coreia, e contar com um setor privado com lideranças empresariais fortes. Assim, podemos ter mais seis e sete anos de crescimento – até a próxima parada. O Brasil é assim.

Temos poucos empresários ativos hoje. O que houve?

Perdemos. E as lideranças empresariais caíram. Você vai na Fiesp e só tem ex-empresário. Mas tem uma montanha de empresas de R$ 10 milhões, R$ 20 milhões, com ideias inovadoras – não só startups. É gente que faz arroz com feijão mesmo, que me deixa otimista. Estamos numa transição. Quem vai ser o líder que vai colocar o guizo no gato, eu não sei. É mais fácil dizer, quem não vai ser. A história é assim. Quem diria que o Itamar Franco, com aquele jeito dele, seria peça chave na transição da loucura dos anos 80 para chegarmos ao Plano Real. Sem o Itamar, não chegaríamos.

 

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