Cirus, quarteto dominante da nova ordem global

Marcos Troyjo

14/12/2016

Os analistas de relações internacionais adoram acrônimos e abreviaturas. Brics, G-7, UE —algumas combinações de letras que buscam explicar diferentes arquiteturas de poder, prosperidade e prestígio.

Não gostaria de aumentar muito essa já extensa lista de siglas. Contudo, acho impossível, nesse refundar da ordem internacional, deixar de sugerir que “Cirus” (sequência em inglês para China, Índia, Rússia e EUA) representa o quarteto de maior importância nos palcos globais.

Desde a vitória de Donald Trump nos EUA, proliferam as avaliações de que o “Ocidente acabou”. Se, com a Guerra Fria, o termo respondia menos a uma referência geográfica e mais a uma visão de mundo que abraçava a economia de mercado, democracia representativa e um sistema internacional baseado em regras, o Ocidente está pelo menos em xeque.

EUA e Reino Unido (para Churchill, a dupla fundadora da ideia de Ocidente) passaram, com “brexit” e Trump, a questionar pressupostos como a primazia do livre comércio. A aliança ocidental, que do ponto de vista geopolítico tem na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) um dos pilares, é pesadamente criticada pelo presidente eleito dos EUA.

A própria ideia de uma Europa integrada, central à política externa de Washington e Londres há décadas, já foi abandonada. Reino Unido, e sobretudo os EUA, preferem adotar uma posição que privilegia os entendimentos bilaterais, aqui compreendidos como relações entre Estados-nação, e não entre países e blocos.

Resulta disso não apenas o enfraquecimento relativo da União Europeia, mas, em consequência, do próprio G-8, dada a ojeriza do novo presidente americano por foros plurilaterais.

Nesse contexto, em que talvez se legitime a ideia do que seria um mundo “pós-ocidental”, é claro que os EUA ainda têm amplo lugar à mesa. Embora a economia americana deva perder o posto de maior do mundo nos próximos 15 anos para a China, o peso relativo e a capacidade de gerar fluxos de riqueza e inovação continuarão a ter sua direção determinada em grande medida pelos EUA.

Se, com a eleição de Trump, os EUA sem dúvida tiveram seu “soft power” muito diminuído, do ponto de vista geoestratégico nada se compara com o poderio americano de forças convencionais e, claro, de dissuasão nuclear. E, nesse sentido, os EUA continuarão por bastante tempo ainda como única superpotência operacional do planeta.

Embora protagonistas, na ordem global que se descortina os EUA certamente não serão hegemônicos. Aqui, claro, a principal potência com quem medir-se será a China. Pequim concorda em assumir o volante da globalização econômica, da qual aparentemente os EUA de Trump preferem afastar-se de forma voluntária.

Isso vale não apenas para o tema de comércio, área em que a China ocupa espaços já que os EUA sinalizam o abandono de mega-acordos no Pacífico e no Atlântico, mas também em investimentos e financiamento do desenvolvimento, setores em que os bancos chineses já desempenham papel maior do que todas as instituições multilaterais ocidentais (Banco Mundial etc.) juntas. Na área de inovação, a China já disputa cabeça-a-cabeça com os países da OCDE o número de patentes depositadas a cada ano da OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual).

Na ordem global que vem por aí, também saltará aos olhos que tamanho e “poder” (hard power) são atributos que ganham ainda maior importância. Nesse quadro, merece destaque a presença da Índia que, mantidas as atuais dinâmicas demográficas, deve ultrapassar a China como país mais populoso do mundo na próxima quinzena de anos.

Como já vimos nesta coluna, a Índia está se beneficiando em grande proporção da “mudança de DNA” da economia chinesa. Os indianos têm o território, a classe gerencial e a mão-de-obra abundante e de baixo custo para que os chineses possam terceirizar sua produção de bens de menor valor agregado. Não é nenhuma coincidência que neste 2016 a Índia, pelo segundo ano consecutivo, verá sua economia crescer em percentual superior ao ritmo chinês.

Resultado disso será que a Índia ajudará a deslocar fortemente a curva de demanda global por commodities agrícolas —já que seu povo, com rendas crescentes, aumentará sobremaneira o consumo diário de calorias. O mesmo deverá ser observado na demanda por commodities minerais, na medida em que a Índia terá de realizar pesados investimentos em sua infraestrutura. Os efeitos colaterais do crescimento de Índia e China se sentirão em todo o Sudeste Asiático, o que aumentará ainda mais o peso relativo da região na economia global.

Mas talvez o membro mais inesperado desse quarteto Cirus seja a Rússia. De decepcionante performance econômica desde o fim da URSS e desalento com a possibilidade do país converter-se numa democracia “à ocidental”, a Rússia também se inibe por uma tendência demográfica que prevê para o país uma população em 2050 de apenas 110 milhões de pessoas —um dramático declínio dos atuais 140 milhões de habitantes. Pode-se ver a Rússia, por muitos prismas, como um ator em decadência.

Ainda assim, é forçoso reconhecer que por seu acervo militar-estratégico, a abundância de recursos naturais e a predileção por desempenhar um papel de relevo em sua vizinhança imediata e mesmo em outras regiões do globo, a Rússia tem seu espaço garantido na elite da nova ordem.

Alie-se a isso o enfraquecimento relativo da União Europeia e da Otan, a tendência de voto das eleições francesas de março de 2017, o namoro Trump-Putin e a própria escolha de Rex Tillerson, de relações pessoais com o titular do Kremlin, como novo secretário de Estado dos EUA, e o novo cenário internacional projeta papel de relevo para a Rússia.

Torço para que a ideia de Cirus não se confirme. Para tanto, seria necessário a União Europeia voltar a trilhar o caminho do reforço integracionista. Fundamental também que os EUA não “abandonassem” o mundo, sobretudo a Ásia-Pacífico.

O Japão teria de jogar papel mais central. A América Latina haveria de desempenhar liderança no crescimento econômico a que parece pouco propensa. E, claro, o multilateralismo deveria ganhar um inesperado fôlego nessa conjuntura de marcados individualismos nacionais.

Na ausência da combinação desses cenários razoavelmente improváveis, gostemos ou não, teremos de nos acostumar à ideia de Cirus como quarteto dominante da cena global.

 

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