Psyop da esquerda contra Michel Temer

 

João da Silveira

24/09/2016

 

Já reproduzimos aqui neste nosso site quase uma dezenas de artigos do historiador F. William Engdahl sobre vários assuntos: sobre Rússia e China, sobre o jogo de Washington na Síria, sobre Irã e o triângulo da Eurásia, sobre o papel da Turquia e da Arábia Saudita na guerra à Síria, sobre George Soros e os refugiados etc. Reproduzimos porque os consideramos analiticamente interessantes. Aí deparamos com seu artigo “Washington Tenta Quebrar os BRICS – Começa o Estupro do Brasil” e sua linguagem nos pareceu excessiva, estranha, inadequada. Nos artigos anteriores, Engdahl tratou de realidades que nos são distantes, mas agora ele trata de uma realidade que conhecemos bem. Então vejamos.

Washington removes o B dos BRICS

Lemos que a “máquina do regime change de Washington” conseguiu com o impeachment de Dilma Rousseff remover por enquanto um elo importante na “aliança” dos BRICS.

Remover “por enquanto”. A tese nos pareceu falsa. O elo era Dilma? O B dos BRICS era Dilma? Removida Dilma removeu-se o B dos BRICS? E Michel Temer, o sucessor de Dilma? Sabemos que ele vai ao encontro dos BRICS em Goa, porque o B não era Dilma nem é Temer, porque o Brasil pouco flutua e está onde sempre esteve.

Aqui, evidentemente, há um golpe de perspectiva. Num comentário a Rakesh Krishnan Simha no início de julho, que falava sobre a possibilidade de Michel Temer derrubar o Brasil dos BRICS, argumentei o seguinte:

“Aconteceu que o governo Dilma, com toda a sua corrupção e suas magias, derrubou o Brasil, derrubou o B dos BRICS. E aí chega Simha atrasado na festa, tentando atribuir a Michel o que Dilma já fez de fato. Michel Temer não vai tirar o Brasil. O que sinto é que Michel Temer vai, isso sim, reaprumar o Brasil nos BRICS, acertando a economia brasileira.”

Temer, o cínico

Na segunda frase, Engdahl taxa Michel Temer como “cínico”. Cínico por falar na inauguração do seu governo como um governo de “salvação nacional”. Salvação por quê, se Engdahl não entende que os governos de Lula e Dilma tenham arruinado o Brasil?

Conferi e vi que Temer falou mesmo em salvação nacional. Falou também de “confiança” no país e da urgência de se “pacificar a Nação e [de] se unir o Brasil”. Por que Temer falou assim? Falou assim porque Dilma em sua defesa no Senado, algumas horas antes, falou em ricos e pobres, apresentando-se como vítima dos ricos por ajudar os pobres. Dilma açulou o antagonismo de classes.

Para Temer, o momento nem era de celebração, mas de reflexão. E a reflexão que ele ofereceu foi justamente essa de adotar uma postura cerimoniosa institucional, evitando palavras que propagassem o mal-estar entre brasileiros, usando palavras outras que propagassem harmonia, moderação, solidariedade e equilíbrio. Temer falou performativamente, com o fito de realizar o desejável. Para Engdahl, puro cinismo.

Dilma não é corrupta

Engdahl prossegue afirmando que Dilma não foi sequer acusada de crime de corrupção. Isso é verdade. Ela não foi mesmo acusada de corrupção. Ela foi acusada de crime de responsabilidade (accountability). Engdahl aparentemente não sabe o que isso significa ou significou no caso de Dilma. Não sabe, nem procurou saber.

Aliás, a expressão “crime de responsabilidade” sequer aparece no seu artigo. A palavra “corrupção”, essa sim, aparece. Ele acha que o impeachment foi por causa da corrupção endêmica que existe no Brasil. A corrupção turva e embala a cabeça de Engdahl e ele não vê que dentro da corrupção estava também a vista grossa da presidente, a irresponsabilidade, a falta de accountability.

Ao fato de que Dilma não foi acusada de crime de corrupção, Engdahl engata a afirmação de que a grande mídia brasileira pró-oligarquia (ele menciona as Organizações Globo) moveu campanha difamatória que criou as bases para o impeachment formal de Dilma pelo Senado.

De fato, houve e continua a ter na grande, na média e na pequena mídia brasileira uma avalanche de notícias sobre corrupção. O assunto é quente. Não foi, todavia, uma campanha difamatória contra Dilma em específico, com o fito exclusivo de derrubar seu governo. Tanto não foi que a avalanche continua depois do governo dela cair.

Percebe-se que Engdahl não acompanha a mídia brasileira, mas ouve falar coisas. Percebe-se que ele se informa por intermédio do brasileiro Pepe Escobar, dilmista inflamado. Engdahl não nota que o que chama “mídia brasileira pró-oligarquia” está a atacar, mire e veja, oligarquias tanto políticas quanto econômicas.

Coligados opositores?

Endahl nos informa que a “mudança” (shift) ocorreu depois que “o partido de oposição PMDB” rompeu sua coligação com o PT de Dilma Rousseff. Que shift terá sido essa? Engdahl é simplesmente confuso, aqui. Se o PMDB estava coligado ao PT, como pode ser chamado ao mesmo tempo de “partido de oposição”?

O PMDB esteve coligado com o PT por mais de 10 anos e não foi partido de oposição, mas de sustentação, aos governos do PT. A coligação formal só foi rompida em março deste ano. Ainda assim não se pode dizer que o PMDB tornou-se de oposição ao governo, pois seis ministros peemedebistas continuaram no governo até o afastamento de Dilma da presidência, isso no dia 12 de maio.

Nesse dia, Temer assumiu e indicou novo ministério, agora sim, sem gente do PT. É necessário estarmos atentos ao calendário dos feitos, pois, caso contrário, embaralhamos causas e efeitos tal como faz Engdahl.

Até aqui, Engdahl deitou-se na desinformação, na distorção de fatos, por causa mesmo do seu desconhecimento dos mecanismos formais e informais da vida política no Brasil. Deitou e rolou, quando devia ter ficado quieto, na de quem realmente não sabe do que fala.

Engdahl escreve sem saber

Eis o gráfico. Folhapress

Vejamos o impeachment no dia 31 de agosto. Em sua defesa no Senado, Dilma nega veementemente a acusação formal de manipulação do orçamento estatal. Ela não fez nada pessoalmente. Fizeram por ela, é claro. Ela só assinou decretos que ministros, da sua confiança, fizeram. Simpático, Engdahl se contenta com a negação dela.

Ele que não acompanha a grande mídia brasileira não viu matéria de Gustavo Patu na Folha, na qual aparece gráfico do Banco Central do Brasil sobre as pedaladas nos governos FHC, Lula e Dilma. É o retrato do desgoverno, não dos outros governos, mas do governo Dilma, da irresponsabilidade de Dilma.

Efetivamente, diz Engdahl a desconversar, ela foi impeached por causa do declínio dramático da economia brasileira. E quem provocou o declínio? Engdahl responde: as agências de risco dos Estados Unidos e as alegações de corrupção na Petrobras.

Essa resposta de Engdahl é uma falsificação. As agências de risco dos Estados Unidos foram tolerantes até não poderem mais com o governo Dilma. Elas esperaram pra ver se Joaquim Levy, homem do tradicional sistema financeiro, dava jeito na situação e só baixaram o grau de investimento ao perceber que ele fracassava, no segundo semestre de 2015. Portanto, não foram as agências que causaram o declínio da economia, mas a bagunça na economia que levaram as agências a baixar o grau de investimento do Brasil.

Traição, traições

Aliás, nem o argumento de que foi o declínio dramático da economia que levou ao impeachment é realmente suficiente. Dilma foi reeleita ao final de outubro de 2014 com 54 milhões de votos, garantindo ao eleitorado que tudo estava bem com a economia e que tudo seria ainda melhor no seu segundo mandato.

Cinquenta e um milhões de eleitores não acreditaram nela e votaram contra a sua reeleição. Sabiam que nem tudo ia bem com a economia. Uma vez reeleita, Dilma chamou Joaquim Levy, homem da oligarquia financeira, para fazer justamente aquilo, um reajuste fiscal, que ela garantiu desnecessário durante a campanha.

É fácil deduzir o que aconteceu em seguida. Parte do seu eleitorado sentiu-se naturalmente traída. E como eleitores traem mas detestam traidores, na posse de Dilma para o segundo mandato, no início de janeiro de 2015 e só dois meses depois de sua reeleição, já se falava no seu impeachment como a retribuição necessária, merecida. Traição, traições, da doutora e dos eleitores, foi o que aconteceu.

Impeachment sem banimento

No mesmo parágrafo em que Engdahl atribui o impeachment ao “declínio dramático da economia”, ele insere um dado que considera importante: “. . .the Senate did not ban her from office for 8 years as Washington had hoped, and she has promised an electoral return.” Antes de passar tal informação como favas contadas, Engdahl devia ter-se perguntado: por que o Senado brasileiro acatou Washington no impeachment, mas não acatou Washington no banimento?

Se tivesse perguntado, talvez ele se desse conta de que nem uma coisa nem outra aconteceu. Washington não teve realmente nada a ver nem com o impeachment nem com o não banimento de Dilma.

Engdahl não sabe que o banimento por oito anos está inscrito na Constituição brasileira nos casos de impeachment e foi escrito lá muito antes de Lula dizer que Dilma viria a ser presidente. O banimento (ostraca) foi aplicado a Fernando Collor em 1992.

Dilma escapou do banimento por causa de uma chicana regimental proposta pelo PT (sem consultar Washington) e aceita por Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo, que presidia a sessão do impeachment sem consultar Washington. Manhas e artimanhas brasileiras exclusivamente, como diria a própria Dilma Rousseff.

Psyop contra Temer

No parágrafo seguinte Engdahl diz: “O próprio Temer foi acusado de corrupção”. Acusado por quem? Há que se perguntar.

Ora, Temer não foi “acusado” de corrupção judicialmente pelo Ministério Público brasileiro. Essa seria uma acusação que realmente vale. Temer foi citado aqui e ali nos depoimentos de alguns investigados importantes, mas o Ministério Público avaliou que tais citações não eram suficientes para a abertura de inquérito ou processo contra ele.

Quem “acusa” Temer de corrupção são militantes do PT, é Glen Greenwald, é Pepe Escobar, é Simon Romero e é o editorial board do New York Times. Escobar, Greenwald, Romero e o Times o acusam ainda de outras coisas igualmente chatas: de ser informante dos Estados Unidos, de ser racista, de ser sexista, com insinuações roméricas de que Michel Temer é mesmo a lewd old man. Isso sim é que é verdadeira psychological operation contra Temer. Nada semelhante foi feito contra Dilma.