João da Silveira

07/08/2016

Michel (Dilma) na Primeira Semana de Agosto

Uma semana de sonhos olímpicos, mas também de tristezas. Tristeza por Dilma e por Lula e pelo PT e por toda a nossa banda esquerda. Tristeza por nós mesmos. Por termos ido no canto da esquerda insuficiente. O que, aliás, acabou sendo necessário para que pudéssemos superar um recalque velho. O regime autoritário de direita inaugurado em 1964 e também insuficiente frustrou, como sabemos, a experiência do país com a esquerda. Por duas décadas o regime reprimiu, derrotou e anulou a esquerda, enquanto organizou sua saída de cena através duma transição conservadora conduzida pelo PMDB.

Sob a égide do PMDB a esquerda voltou a prosperar. Elegeu-se Fernando Henrique em 1995 e, com a eleição de Lula em 2002, alcançou novamente o poder em sua plenitude. Desta vez o experimento não seria frustrado. Desta vez o país experimentaria o poder e as capacidades da esquerda ao longo de 13 anos, inclusive com apoio e aprovação internacionais.

Em 2001, o economista Jim O’Neal, chefe de pesquisa em economia global do grupo financeiro americano Goldman Sachs, cunhou a expressão BRIC: Brasil, Rússia, Índia e China. Curioso é que ele não viu nesses países nenhuma ameaça ao capitalismo. Pelo contrário, ele viu nesses países a saída para a persistente estagnação das economias mais desenvolvidas. Brasil, Rússia, Índia e China iriam alcançar e ultrapassar as grandes economias, até mesmo os Estados Unidos da América, o que era bem-vindo.

Em 2005, apesar da política corrupta já aberta aos nossos olhos pelo Mensalão, os brasileiros estavam felizes com sua esquerda no poder. Inundado por dólares de commodities (agronegócio e mineração), o governo Lula quitou a dívida do país com o FMI, num golpe publicitário que impressionou o mundo e ajudou sua reeleição em 2006.

Em 2008, a economia americana mergulhou na crise do subprime, das hipotecas. Em 2009, Lula jactou-se: declarou seu destemor para com os efeitos da grande crise, e o mundo foi no embalo do Brasil, pois aquele embalo era bom para todos, inclusive para a recuperação das economias maiores.

O Brasil ganhou para sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, imaginadas ambas como momentos marcantes da apoteose nacional. O Imperador do Mundo o mulato Barack Obama – Americanus-Africanus-Asiaticus-Europæus-Oceanicus-Mundus-Universus-Pluriversus-Quanticus-Deus – saudou Lula num encontro do G-20 como o mais popular dos líderes mundiais. Lula era então mais popular e mais amado que ele, Obama.

Lula já dera mostras, num tango com Evo Morales, de ser de fato um presidente cordial de um grande país cordial: Lula era o anti-Obama, o melhor do bom. Lula, O Cara, sentiu que, tendo chegado onde chegou sem maior preparo abstrato, formal, metafísico; sem jamais ler um livro; sem casa onde morar, sem mesmo um celular em seu nome; aleijado até dum dedo, mas ativo sempre; esse Lula treinado nas lides sindicais e em campanhas eleitorais pelo Brasil a fora viu na pobreza patrimonial a astúcia maior que faria dele o ético dos éticos, universal-católico, pois não tendo nada tudo tinha. . .relações que o permitiriam alcançar o que quisesse.

Era seu gênio. Estava em seu gênio. Seu instinto. Seu faro.

Podia eleger Dilma sua sucessora e avatar, através de quem ele continuaria a governar sem estar no governo. Podia eleger-se presidente da Nações Unidas ou voltar a presidir o Brasil se necessário. Ao mesmo tempo, em parceria com grandes construtoras amigas e com dinheiros do BNDES, do BB, da CEF, desenvolveria não só o Brasil, mas a América e a África e o seu Instituto, ele mesmo. Todos lucrariam com sua grandeza. Era seu império americanus-africanus, talhado bem ali diante dos seus olhos e do seu nariz; ele foi, ele viu e cheirou esse império que lhe renderia altos e merecidíssimos cachês por suas palestras folclóricas, trôpegas e roucas; cachês tão ou até mais altos que os de Bill Clinton. Esse era o futuro imaginável de Lula e do Brasil em 2009, e Lula elegeu Dilma como quis, erro do seu despreparo e da sua soberba. Nesses 13 anos no poder, os da esquerda fizeram o deus e o diabo com o apoio fiel, canino, de duas dezenas de partidos políticos, com apoio do New York Times, do Guardian e do Le Monde, e deixaram o país na condição que está. Daí vem, se aproxima, o impeachment de Dilma.

Jon Lee Anderson disse mais ou menos o que vai acima, num artigo simpático em que ressalta o Brasil como paradoxo. Mas o paradoxo esse está é na cabeça de Jon. Pois na cabeça de Jon o Brasil vivia em modorras provincianas (provincial slumbers) até que surgiu o torneiro mecânico, O Cara.

Nós, os que vivemos aqui, sabemos que não foi assim. Sabemos que o Brasil, desde que proclamou-se república e descartou-se como império dinástico, passou por muitos transtornos e mobilizações ao longo do século XX, sempre em busca de si mesmo na trilha da lenda democrática. Lula, o torneiro mecânico, foi o cordeiro, a personificação dessa lenda como homem do povo. Foi o escolhido e jogou como pode, com todo o seu despreparo, o despreparo do povo brasileiro.

Sabemos que Lula perdeu por incompetência pessoal uma eleição para Fernando Collor. Perdeu mais duas eleições para Fernando Henrique, ambas no primeiro turno. E quando passou a ganhar eleições, nunca as ganhou no primeiro turno. Esse fato indica que suas maiorias nunca foram realmente avassaladoras e convincentes. Aliás, muita gente no Brasil nunca acreditou em Lula. Essa gente tem sido representada nessas minhas crônicas pelas vozes d’O Antagonista.

Sabemos que o Brasil não viveu, antes de Lula, em modorras provincianas; os brasileiros passaram por dificuldades e por grandes mobilizações, mas nenhuma modorra. Passaram e passam. Na cabeça de Jon há um paradoxo; na cabeça dos que vivemos aqui e experimentamos e conhecemos a política brasileira não há tal paradoxo. Há essa tristeza no espírito, do espírito, essa melancolia sempre em busca de remédio. Tristes trópicos. E o remédio está na compreensão de que o Brasil é um polo geopolítico próprio, com envergadura semelhante à da China, da Rússia e dos Estados Unidos. Está na compreensão de que a acumulação de capital é a própria civilização, é o próprio capitalismo em suas variadas formas, algumas produtivas, outras desastrosas. . .