João da Silveira

28/08/2016

 

Leio Raduan Nassar, nome famoso! A leitura não chega a ser uma decepção, mas uma tristeza! Aquela mesma tristeza que sinto por Lula, por Dilma, pelo PT, pela esquerda latino-americana, agora por Raduan, que também está triste pelo “linchamento” de Lula, e eu triste especialmente por nós brasileiros, que um dia acreditamos em Lula ou votamos em Lula ou esperamos de Lula ou iludimos a nós mesmos com Lula, enfeitiçados pela lenda democrática.

O artigo de Raduan vai num crescendo. Primeiro ele cita o jornalista britânico Robert Fisk para dizer que, segundo o relatório Chilcot, Tony Blair e George W. Bush deviam ser julgados por crimes de guerra no Iraque. Bush era “comparsa” de Blair e Blair era “poodle” de Bush, donde se pode concluir que Bush foi comparsa de um cão. Esse é o estilo de Raduan, é assim que Raduan pensa.

Mais à frente, Raduan apresenta o então deputado federal e hoje vice-presidente da República Michel Temer como se fosse um informante do criminoso Bush. Como prova disso, Raduan nos refere às mensagens que a Embaixada Americana rotineiramente faz para Washington sobre a política brasileira, mensagens divulgadas pelo Wikileaks, tendo como personagem o então deputado federal. A propósito, elas não revelam nenhum segredo de Estado realmente, nem algo que já não fosse público, nem tratam de conversas só com funcionários americanos.

Os parágrafos seguintes descrevem o “interino Temer” e seus “sabujos” de braços dados com tucanos golpistas e neoliberais. Aloysio Nunes e seu “comparsa” José Serra estão a entregar o Brasil ao neoliberalismo norte-americano. Serra, esse então “interino itinerante”, está, segundo Raduan, a jogar no lixo o protagonismo internacional da “diplomacia ativa e altiva” de Celso Amorim. Qualificações ad hominem é falácia lógica e retórica grosseira de Raduan. Assim fala Raduan!

Aqui, é preciso assinalar duas coisas que escapam a Raduan: uma, que os tucanos não são neoliberais e estão bem mais próximos do petismo do que do neoliberalismo; outra, a de que quem jogou no lixo a diplomacia de Celso Amorim foi Hillary Clinton (a exemplo do descartado acordo nuclear com o Irã) e Dilma Rousseff.

Dilma? Sim, ela mesma! Entre Amorim e Serra, teve Antonio Patriota e Luiz Alberto Figueiredo. Aliás, nem Celso Amorim chama a política externa de Antonio Patriota e de Luiz Alberto de “ativa e altiva”. Portanto, Serra não pode estar a jogar no lixo algo que não há mais. QED!

Raduan não deixa de falar da Lava Jato ou, mais propriamente, do juiz Sérgio Moro, esse também implicitamente a serviço dos Estados Unidos. E as confusões de Raduan abundam: para ele a embaixada americana em Brasília é um consulado e o consulado americano no Rio é a embaixada. Raduan não se atualiza. Em seu apoio ele cita o atualíssimo historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, segundo barão de São Marcos, que descreve com riqueza de detalhes o golpe que o Império promove no Brasil.

Lula, a vítima, foi impedido de assumir a Casa Civil pelo “goleirão” Gilmar Mendes e, nesse ponto, Raduan recorre a Janio de Freitas por este ter dito que, “com sua experiência e talento incomum de negociador”, Lula “talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo”. Ora, eu também já citei esse mesmo Janio, mas para contestá-lo. Disse que “Janio não vê que Lula teve seu tempo, sua hora, sua vez; que Lula regeu o governo Dilma desde setembro/outubro de 2015 e não destorceu nada, só retorceu. . .” O mesmo repito aqui a Raduan Nassar.

Raduan sugere então ao leitor uma visita ao site do Instituto Lula para dar-se conta das “espantosas e incontestes realizações” do ex-presidente. Ingênuo, Raduan não percebe que a realização mais espantosa e inconteste de Lula é mesmo a “presidenta” Dilma Rousseff, que anda fora do site.

E os erros do ex-presidente? O PT cometeu erros, “alguns até graves (quem não os comete?)”, relativiza Raduan. Escrevendo a leitores parvos, ele compara inapropriadamente os erros do PT com os erros de Fernando Henrique, afirmando sem qualquer termo de aferição que os erros deste foram mais graves.

Por que ele não comparou, apropriadamente, os erros de FHC com os erros de Lula? Ora sô e Lula lá errou? Nada, nem pergunte, uai!

E a corrupção? A corrupção “é mundial”, diz Raduan. Lula não é corrupto? Lula “propiciou, como nunca antes, o desempenho livre dos órgãos de investigação”. E pelo visto, os órgãos de investigação, livres, voltaram-se contra ele: a polícia federal, o ministério público, juízes da primeira instância, juízes do Supremo onde a maioria deles foi indicada por Lula. Mundo infeliz, mundo injusto, mundo cão, não é Raduan?

E as traficâncias de Lula com Leo Pinheiro? E com Marcelo Odebrecht? E com Delcídio do Amaral? E com João Vacari a lesar mutuários da Bancoop? E com o Paulinho da Petrobrás? E com a Telemar? E com Chávez? E com Cristina? E com Raul? E com Dilma? . . . Era a luta contra o Império, não era Raduan?

Aos 80 anos de idade, Raduan Nassar escreve como calouro, incapaz de discernir o essencial da política. Ele não percebe que o impeachment de Dilma e o linchamento político de Lula, ambos ainda não consumados, mas a ponto de se consumarem, serão o resultado justo de suas próprias ações, de sua própria incompetência. E nós brasileiros ficamos com os males que fizeram. Pintaram e bordaram e botaram pra quebrar e entram para a história para sempre serem lembrados. E todos escrevemos essa história de Lula e Dilma, triste, triste de doer, até em Raduan Nassar!