João da Silveira

12/06/2016

 

Michel (Dilma) na Segunda Semana de Junho

O Brasil é medalha de ouro em corrupção, diz editorial do New York Times. E Michel Temer mostrou mau juízo ao escolher um gabinete todo masculino e todo de brancos, um gabinete macho-branquicéfalo, quando mais da metade da população brasileira é feita de mulheres e não brancos. Além desse desequilíbrio gênero-racial, sete dos 26 ministros escolhidos, cerca de 1/4 do gabinete, estão manchados pelos escândalos de corrupção. Isso, no entender do editorialista, aumenta a suspeita de que foram indicados para barrar as investigações. E ele lembra em contrapartida que, mais cedo este ano, Dilma Rousseff disse que o prosseguimento das investigações seria saudável para o Brasil. Dessa forma, o editorial do Times passa a imagem de um governo Temer machista, racista, complacente com a corrupção e prejudicial ao país, enquanto o governo Dilma era seu oposto e bom para o Brasil. Desinformação!

O editorial do Times sai na segunda. Na terça, o jornal publica entrevista com Dilma feita pelo correspondente Simon Romero, “Pall Hangs over Brazil’s Presidential Palace as Dilma Rousseff Prepares for Trial” (“Tristeza Paira sobre o Alvorada enquanto Dilma se Prepara para Julgamento”. Romero e o editorial seguem a mesma batida. Romero descreve a indignação e impotência de Dilma lá no luxuoso e cavernoso Alvorada e seus lampejos de esperança: as mancadas embaraçosas de Michel Temer; o “português arcaico” de Temer, que atordoa os compatriotas; as denúncias sobre a cúpula do partido dele, o PMDB; as escolhas conservadoras (no pior sentido) de um “governo provisório”; e a esperança de que bastará mudar uns poucos votos e seu impeachment cairá no Senado. . .

O maior favorecimento do entrevistador para com a entrevistada vem ao fim da matéria, quando Romero observa que Dilma anda de bicicleta de manhã e à noite lê, “devorando cada edição digital do The New York Review of Books”, além de Mary Beard, SPQR: A history of ancient Rome. Aí somos informados para nossa surpresa que, além de saber inglês o suficiente para “devorar” o NYRB e a Mary Beard, Dilma também sabe latim e cita o “Quam diu etiam furor iste tuus eludet?”, o clássico lamento de Cícero contra Catilina. A propósito, Dilma também tem seu Catilina: é o Eduardo Cunha. É Dilma e Eduardo na trilha da História Universal e isso nos surpreende porque Dilma nunca nos pareceu figura assim tão expressiva. Pelo contrário, a imagem que temos é a das suas dificuldades não só com o inglês (aqui – ifiuispiquiizlouli, aiquenanderestêndiu, e ele falou izlouli e ela não entendeu), mas também com seu português atrofiado (aqui) e peripatético a la Lula (aqui).

O editorial do Times e a entrevista de Romero são exemplos de desinformação, porque não apuraram bem seu assunto. Por exemplo. Se comparassem o ministério de Dilma com o de Temer, veriam que, de fato, Dilma teve no dela uma meia dúzia de mulheres quando deveria ter tido três vezes mais para alcançar a paridade com o percentual feminino da população, razão usada para desqualificar o juízo de Temer. Quanto à raça, a brancura do ministério de Dilma não diferiu significativamente da brancura do ministério de Temer, pois de afro descendentes o ministério dela só teve mesmo Nilda Lino Gomes, no ministério da Igualdade Racial. E quanto à escolha de ministros marcados pela corrupção, mais da metade do ministério de Dilma estava assim marcada, contra ¼ no ministério de Temer. Se na área feminina Temer está pior, na área da corrupção ele está melhor do que Dilma. Não questionamos a afirmação de que o Brasil seja medalha de ouro em corrupção, mas daí a apresentar Dilma Rousseff como poderosa intelectual encastelada por velhos homens brancos machistas, racistas e corruptos, aí vemos que o New York Times não fez mais que desinformar seus leitores.

Durante a entrevista a luz cai três vezes. Da primeira vez, Dilma Rousseff faz careta de desgosto. Da segunda, revira os olhos. Da terceira, pula fumegante da cadeira e pede explicações. Energia é área de seu conhecimento e prioridade da sua administração até sua saída do Planalto duas semanas atrás. “Não sei porque isso está acontecendo”, disse ela. Talvez tenha ocorrido a Romero que a instabilidade da energia no palácio explica a queda da própria Dilma ao expor a precariedade de seus conhecimentos energéticos e de suas prioridades nos cinco anos da sua administração. Romero nada disse ou insinuou quanto a isso. Apenas anotou o fato.

Na terça-feira 07/06, Al Jazeera do Catar também abre espaço a Dilma Rousseff. Lá ela diz que está sendo punida por se recusar a barrar as investigações de corrupção na Lava Jato; que não sendo ela corrupta, punem-na por pedaladas fiscais praticadas também por outros governantes, esses nunca punidos; que Michel Temer foi levado ao poder para estancar a sangria da Lava Jato; que, ao defender a democracia, ela vai “reganhar” a confiança dos brasileiros; que sente falta de pesquisas de opinião pública para mostrar que a maioria da população é contra o impeachment; e que a substituição de um governo só pode ser feita com a participação popular.

Na Al Jazeera também prevalece a desinformação, pois Dilma fala como se a presidente da República no Brasil tivesse o poder e a prerrogativa de “barrar” uma investigação de corrupção; ela diz que se recusou a barrar a Lava Jato quando na verdade tentou barrar por vários meios ou intermediários, mas lhe faltou o poder e a prerrogativa para tal. Quanto às pedaladas fiscais, ela desconsidera que foram menores nos outros governos, não afetando o equilíbrio fiscal deles, e foram maiores, bem maiores, no seu governo, afetando seu equilíbrio fiscal. Esse foi seu problema: a quantidade tornou-se qualidade. E Michel Temer não foi levado ao poder para estancar a sangria da Lava Jato; ele foi levado ao poder porque ela, a presidente, foi afastada e porque ele é o vice-presidente, escolhido por ela mesma. Ela espera “reganhar” a confiança dos brasileiros (defendendo a democracia) e não explica porque perdeu a confiança do povo. Nem bem Dilma diz na terça que sente falta de pesquisas e sai pesquisa CNT/MDA na quarta indicando que 62% da população, a maioria, portanto, continuam querendo seu afastamento e quase 70% acreditando que o Senado o fará definitivamente. E Dilma simplesmente ignora o fato de que a substituição de seu governo responde à exigência de enormes manifestações populares, sendo que manifestar é participar.

Na quarta-feira 08/06, Pepe Escobar, teórico itinerante da esquerda latino-americana-bonapartista-e-bolivariana, explica aos russos o que acontece no Brasil e os russos veiculam sua explicação ao mundo através da Sputnik News Agency. O que está em jogo no Brasil não podia ser maior: é o futuro dos BRICS, o futuro do mundo multipolar, tudo dependendo do que acontecerá por aqui nos próximos meses. . . Escobar começa com o “tumulto interno”, tumulto que ele descreve como kafkiano. Kafkiano? Sim. Pepe gosta de adjetivação literária que facilite a comunicação do clima. . . E dentro desse tumulto kafkiano está o “golpe” contra a presidente Dilma Rousseff, golpe que Escobar define como um presente presenteante, assim: “presente de uma insuperável tragicomédia teatro-política midiática que segue presenteando”. Um presente que segue presenteando? Em inglês: “an unrivalled media theatre/political tragicomedy gift that keeps on giving”. A gift that keeps on giving? Dá para entender o que seja isso? Que seja uma comédia a gente entende, mas Escobar não nos diz o que nela há de trágico. Uma tragicomédia? Leiamos, leiamos! Escobar é um jornalista exuberante e um neologista da gema. O presente que segue presenteando ele vai sintetizar mais adiante no que chama de “golpeachment”, ou seja, um cruzamento de golpe de estado com impeachment constitucional. Ah, agora a coisa nos parece mais clara; golpeachment é fácil de entender. Mas não nos basta entender, aceitar teoricamente esse golpeachment como algo bem entendido, porque essa tragicomédia teatro-político-midiática é também um caso de guerra. De guerra, chê? Sim, de guerra! Talvez o trágico da coisa esteja aqui. Mas não, não se trata de guerra militar quente e mortífera, mas guerra fria de informação, informática, midiática. . .um instrumento estratégico de controle político. E quem é que aplica esse golpeachment em Dilma? Ora, só pode ser o Império do Caos, os Estados Unidos da América. E para que o Império do Caos golpeacha o Brasil aqui neste fim de mundo? Ora, para derrubar o B dos BRICS, para enterrar o futuro do mundo multipolar e promover o futuro do mundo unipolar. Por isso Pepe Escobar, teórico itinerante da sempre insuficiente esquerda latino-americana-bonapartista-e-bolivariana, afirma que o que está em jogo no Brasil não podia ser maior. Para os russos, isso faz sentido. Para os brasileiros, é explicação do que acontece pela ótica da esquerda bolivariana.

Vladimir na Segunda Semana de Junho

General Turki Hassan: “A prominent Syrian military analyst underlined that the army and popular forces’ anti-terrorism operations in Raqqa foiled the US plots to disintegrate Syria.” Bravo! Mas ainda é cedo para se afirmar algo desse tipo. As forças armadas sírias precisam tomar Raqqa primeiro e segura-la, o que não está garantido. Pelo contrário. . . Bashar al-Assad no Parlamento. . .contrasta com russos e iranianos. . . Sputnik News fala de uma corrida coordenada para Raqqa entre Exército Árabe da Síria e as Forças Democráticas da Síria. Na verdade, tal coordenação será simplesmente uma coincidência, pois, para haver uma corrida, precisa-se ter simultaneidade. . .

Pensamentos de W. Patrick Lang sobre a situação na Síria. O quarto pensamento: “4.  The Russians evidently thought they could make an honest deal with Kerry/Obama.  Well, they were wrong.  The US supported jihadis associated with Nusra (several groups) merely “pocketed” the truce as an opportunity to re-fit, re-supply and re-position forces.  The US must have been complicit in this ruse.  Perhaps the Russians have learned from this experience.”

Temores russos com Sistema de Defesa Balística que os Estados Unidos estão a instalar no leste europeu. . . Alarme na Rússia. A doutrina da Primazia Nuclear vem substituindo há pelo menos uma década, nos Estados Unidos, a doutrina MAD da Assegurada Destruição Mútua. . . Eric Zuesse. . . Mas Federico Pieraccini: guerra nuclear não faz sentido. . .Racionalmente não faz realmente, mas aí temos também as forças irracionais, as forças do inconsciente, do subconsciente, do oscuro, do não inteligível etc.