João da Silveira

19/06/2016

 

Michel (Dilma) na Terceira Semana de Junho

Diz O Antagonista: “O que mata o governo Temer é a continuidade com o governo Dilma.”  Exemplo: Henrique Eduardo Alves foi ministro do turismo de Dilma e agora é ministro do turismo de Temer; Hélder Barbalho foi ministro dos Portos do governo Dilma e agora é ministro da Integração Regional do governo Temer. Também foram ministros de Dilma, Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Wellington Moreira Franco, que são agora ministros de Temer. E mais, Leonardo Picciani, atual ministro dos Esportes, foi líder de Dilma na Câmara e votou contra seu impeachment. É grande, pois, a continuidade subjetiva, porque o PMDB não só era governo como continua governo. É uma continuidade peemedebista, isso sim.

Mas não se pode esquecer que há também descontinuidade subjetiva importante, pois o alto escalão do governo Dilma – Aloísio Mercadante, Edinho Silva, Giles Azevedo, Jacques Wagner, José Eduardo Cardoso, Lula, Miriam Belchior, Nelson Barbosa et ali – não está mais no governo, não seguiu com o governo Temer. Ou seja, o PT era governo e o PT não é mais governo. Está fora. É isso que os petistas chamam de “golpe”. É de fato um golpe prescrito pela Constituição, o impeachment, conduzido metodicamente na forma da lei. Esse pessoal ficou no comando do país por mais de 13 anos e agora estão sendo afastados, num processo que podemos chamar de despetetização do governo federal. A despetetização já foi feita no primeiro escalão, mas atravessa uma interinidade na qual ainda expiram a possibilidade do retorno e a resistência por parte de petistas do segundo e terceiro escalões. Esse é o valor da descontinuidade.

A despetetização, aliás, tem muitas facetas, a começar por revezes que Dilma e Lula devem ainda sofrer: redução dos gastos públicos com Dilma, que pensa, curiosamente, que está apenas viajando; o arquivamento de recursos de Dilma contra restrições que lhe são impostas pelo presidente interino Temer; nova condenação pelo TCU das pedaladas cometidas em 2015; suspensão da publicidade pró-governo nos sites comprometidos com o PT; exonerações de militantes petistas em cargos de confiança; aprovação da Lei das Estatais para dar maior transparência ao capitalismo de Estado brasileiro; extinção de pastas de aparelhamento partidário; privatização de empresas no setor energético e desobrigação da Petrobras de ser sócia em todo investimento no pré-sal; redução na atuação da EBC e extinção da TV Brasil no setor de comunicação; condenação e prisão de Lula como pá-de-cal ao lulopetismo, mas isso é da pauta da Justiça e não do governo federal. Estes, aliás, são os limites até onde poderá chegar a descontinuidade entre os governos Lula/Dilma e o governo Temer.

Figueiredo Bastos, advogado com o maior número de delatores, diz que o presidente Temer é refém da opinião pública e da operação Lava Jato. Pensando bem ele até que tem razão, mas ele e nós havemos de convir que não há de ser ruim o ser refém dessas duas forças. Seguramente é melhor do que ser refém de delatores ou de lideranças investigadas ou de uma hipotética autonomia pessoal. Entrevista de Deltan Dallagnol ao Estadão nos mostra como são as coisas para quem está com a Lava Jato: A Lava-Jato só sobreviveu até agora porque a sociedade (opinião pública) é seu escudo e, vale acrescentar, Temer tem experimentado a higidez desse escudo toda vez que um ministro seu cai por criticar ou ameaçar a Lava Jato. . .

Agora, Temer é homem cuidadoso, precavido e, tudo até aqui indica, bem afortunado, pois segue incólume apesar de suas vulnerabilidades. . . Dellagnol diz que não se pode menosprezar o poder das lideranças investigadas, principalmente quando os planos para acabar com a Lava Jato são tratados pelo presidente do Congresso Nacional. . .são pessoas as mais poderosas dentro da República, as que querem barrar a Lava jato. . .não se deve esquecer outras operações que foram derrubadas por nulidades processuais no Supremo. . .nem se deve esquecer o caso da Itália, onde a edição de novas leis, como uma imaginada por Renan Calheiros para impedir a delação de pessoas presas, beneficiaram os corruptos. . .no Brasil, tem-se proposto até o rompimento da ordem constitucional com uma nova constituinte, seguramente com o propósito de tolher o poder do Ministério Público e da Justiça. . .

A Lava Jato, no entanto, segue incólume, sob o escudo da opinião pública. Na Lava Jato, não compartilham da tese que os políticos são ladrões, porque o que querem e contam é com políticos comprometidos com o interesse público, que nos protejam dos maus políticos comprometidos só consigo mesmos. Com sua baixa popularidade, Temer não tem o escudo da opinião pública, mas é refém da Laja Jato que o tem. E sendo ele sabedor de que só poderá ser processado e condenado por crimes cometido no exercício de seu mandato de presidente da República, Michel Temer não precisa cometer nenhum crime, ou pactuar com nenhum criminoso, estando, pois em posição singular para fazer valer o interesse público e a boa política, salvando-se assim o Brasil e a si próprio. Essa é sua situação de homem bem afortunado no meio da tragédia e comédia nacional!

Vladimir na Terceira Semana de Junho

Como vemos acima, os principais problemas de Temer é Renan Calheiros e Sérgio Machado, ou seja, a corrupção sistêmica, e é Dilma e o PT, ou seja, a despetetização. . .enquanto os problemas de Putin vêm de Obama e da OTAN, de Merkel e de Erdogan, é do ISIS e da Al-Nusra. . .

Aleppo e Raqqa. Aleppo ou Raqqa? As forças armadas da Síria estão numa encruzilhada. Ainda na semana passada havia uma corrida para Raqqa. . . Ainda na semana passada os curdos mudam de direção e se afastam de Raqqa e cercam Manbij. . .

Segundo Marjanovic, os Estados Unidos movem duas guerras na Síria, uma pela CIA em Aleppo e a outra pelo Departamento de Defesa em Manbij. . .

Artigo de André Vitchek no New Eastern Outlook trata da necessidade de incrementar a luta ideológica na América Latina. . . Vimos na semana passada que a América Latina é o verdadeiro quintal da América. . .

Vladimir Putin poderá influir na eleição americana revelando através de terceiros os e-mails de Hillary Clinton. . . A especulação é absurda. Não há como saber. . .Putin não é temerário. Ele deve ficar fora disso. .

A alternativa Hillary entre os Democratas é Bernie Sanders, que assusta os conservadores norte-americanos porque ele quer transformar os Estados Unidos numa Dinamarca ou numa Suécia. Para os conservadores isso significa ainda mais intervenção estatal, o que os assusta. Na política externa, todavia, Bernie promete ruptura com a política bipartidária dos neoconservadores, os neocons de Hillary Clinton, os guerractores (warmongers).

John Kerry fala duro, de Oslo. . . Há uma aparente discenção no Departamento de Estado, com memorando assinado por uma meia centena de diplomatas falando bombardear metodicamente as forças de Assad na Síria. . . Os russos acham que é para pressiona-los. . . Zero Hedge acha que o atacar as forças de Assad é proposta da agenda dos sauditas. . . É e é também o que o governo dos Estados Unidos tem em comum com a monarquia saudita: uma vontade imensa de acabar com Bashar al-Assad. Assim como Vladimir Putin, Assad é outro homem-demônio, é o responsável por tudo de ruim que está acontecendo na Síria. . .