BRASÍLIA, DF, BRASIL, 09.06.2016. O presidente do Senado, senador Renan Calheiros, dá entrevista após sair do seu gabinete no Senado Federal. (FOTO Alan Marques/ Folhapress) PODER

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) Alan Marques/Folhapres

IGOR GIELOW
16/06/2016

Para o presidente interino, Michel Temer (PMDB), a acusação feita por Sérgio Machado é obviamente péssima, mas não é neste momento o maior dos problemas que a delação do ex-presidente da Transpetro lhe causa.

Para ser mortal, a citação, por ora, depende de informações complementares: a empreiteira confirmando a encomenda em seu nome, a operação ponta a ponta. A dificuldade de rastrear o dinheiro é a beleza, por assim dizer, do esquema revelado pela Lava Jato no petrolão.

O maior problema para o Planalto se chama hoje Renan Calheiros (PMDB-AL). Machado está para ele como Delcídio do Amaral estava para o PT: é um homem seu.

Um presidente do Senado mordido já mostrou a que veio ao questionar os termos do projeto que limita gastos do governo. Se ferido de morte, seguindo os passos de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Câmara, seu nome passa a ser imprevisibilidade.

Renan sempre foi seu desafeto, e trabalhou contra o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Se a votação final do caso no Senado possui certa blindagem, o que não quer dizer imunidade contra influências, o mesmo não pode ser dito do encaminhamento de medidas.

A eventualidade de um vácuo poderia gerar um apagão no Legislativo no momento em que o governo aposta todas suas fichas justamente na cooperação com o Poder.

Este é um cenário hoje extremo. Ao menos até ficar clara a disposição de Renan de enfrentar o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Sob olhares desconfiados de políticos de A a Z, o procurador-geral sofreu uma derrota ao ver o pedido de prisão do senador e de outros próceres do PMDB rejeitado pelo Supremo. Isso animou Renan a engrossar a voz e avaliar o pedido de impeachment contra Janot que apareceu numa árvore do Senado tal e qual o proverbial jabuti.

Além disso, se a Lava Jato segue intocável no imaginário popular, pode ser erodida aos poucos por medidas oriundas do Legislativo.

Neste ponto, a amplitude da delação de Machado traz problemas para os petistas que ainda subscrevem a visão do partido de que a Lava Jato foi “braço operacional do golpe”. A cautela da reação do petismo é eloquente.

Por fim, há vários personagens atingidos mais ou menos lateralmente no episódio, como o tucano Aécio Neves. O estrago maior, na superfície e nos intestinos, ficou na conta do governo e do PMDB.

 

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