A pedido de ÉPOCA, Olga Curado, que treinou Lula e Dilma para campanhas eleitorais, analisou o primeiro discurso do presidente interino e o último discurso da presidente afastada

GABRIELA VARELLA
14/05/2016
Análise corporal do discurso Temer e Dilma (Foto: AFP/Roberto Stuckert Filho/PR/Época)

Michel Temer em seu discurso como presidente interino e Dilma Roussef em seu discurso de afastamento (Foto: AFP/Roberto Stuckert Filho/PR/Época)

 

A pedido de ÉPOCA, na última quinta-feira 12, Olga analisou a linguagem corporal de Dilma, em seu discurso de afastamento do cargo, e de Michel Temer em seu primeiro discurso como presidente interino, após a decisão do Senado Federal de abrir o processo de impeachment. Segundo a análise de Olga Curado, apesar de falar com a firmeza de quem promete lutar até o fim, Dilma, agarrada ao púlpito, com a sobrancelha levantada e a boca contraída, não conseguiu esconder os sinais de abatimento. “Numa situação em que ela perdia o controle das coisas, ela apontava o dedo, num gesto de quem busca o controle. Estava muito desgastada.”

Temer, por outro lado, em seu primeiro discurso, parecia estar em casa. “Ele chegou onde queria. A autoconfiança está lá em cima”, diz Olga. O presidente interino, na sua visão, apesar de tentar inspirar gentileza, não é um sujeito fácil de lidar: seus gestos de mãos, os apontamentos e as demarcações durante sua fala demonstram que ele é uma pessoa dura. “É quase autoritário no sentido de que ele, quando quer uma coisa, tem dificuldade de abrir mão do que acha que tem de ser”, diz. O peemedebista encerrou o discurso pedindo proteção divina ao país. “Ele tem confiança de que os céus vão ajudar. Ele se acha próximo do Sol, vamos dizer assim. É diferente dela, que olha as coisas muito de perto.”

Seja na pressa de controlar o outro ou a si mesmo, Dilma e Temer demonstraram sentimentos completamente opostos durante os pronunciamentos – não por acaso. Leia a seguir as análises de Olga Curado, feits com o olhar afiado de quem fisga inseguranças e gestos impositivos.

 

O que Dilma ainda não aprendeu

por Olga Curado

A presidente da República afastada Dilma Rousseff revelou, ao discursar em sua despedida temporária do comando em exercício, que não gosta de ser contrariada – e que não aprendeu a ouvir, apesar de tudo –, nem de aplausos. Estava preparada para fazer um discurso e não gostou de ser interrompida, nem pelas palmas dos correligionários. Mostrou apreço pelas palmas somente quando lembrou o seu papel na história como primeira mulher eleita presidente da República. Repetiu essa fala duas vezes no primeiro discurso – que chamou de declaração – e voltou a proferi-la no improviso para o público, no lado de fora do Palácio da Alvorada.

De pé, diante de um púlpito, em que se manteve apoiada todo o tempo com os ombros tensos, Dilma segurava o móvel num sinal para que as pessoas contivessem as suas manifestações. Revelou a sua irritação ao levantar a mão direita. Gesto que  repetiu pelo menos três vezes nos 14 minutos de sua fala.

Também é notável o sentimento de raiva expresso diante do seu afastamento do cargo: a boca contraída, as sobrancelhas levantadas, a projeção do pescoço e o queixo levantado acima da linha do horizonte pontuavam as suas pausas e mostravam como ela lia a situação. O queixo levantado revela arrogância. Nesse caso, indicava que ela se colocava acima daquilo tudo. Essa postura mudou quando se lembrou da experiência dolorosa de sua doença. As lágrimas contidas e sua expressão facial demonstravam que ela foi invadida pela tristeza. 

As suas marcas de personalidade e comportamento estavam bem presentes durante o discurso. A dificuldade em ouvir, a irritação, a raiva quando se sente contrariada, a necessidade de manter controle e a ausência de empatia revelavam-se no tom de voz ríspido e nos gestos. Dilma levantava e abaixava os braços, regendo e apontando o dedo indicador. Ao fazer isso, mostrava que não convidava seus apoiadores à luta, mas, sim, ordenava.

A contradição do personagem, que neste momento sai da posição de poder mais importante da República, apareceu ainda em sua roupa, como uma negação dos fatos. Não à toa, vestiu branco, a mesma  cor de sua posse em 2010, obedecendo a lógica da confiante luminosidade em momentos de trevas e desafios. Mas traiu a verdadeira percepção da realidade: ao abrir o  casaco, falando ao público do lado de fora do Palácio, deixou aparecer uma blusa preta. Assim como a aparência cuidadosamente produzida  tentava esconder os sinais de cansaço, a camiseta preta embaixo da roupa branca mostrava que nem tudo era de fato o que ela queria transparecer. A imagem do ex-presidente Lula ao lado dela só confirmava a gravidade do momento. Confinado no bigode e de olhar quase cabisbaixo, ele mostrava que o momento era de se recolher.

Linguagem Corporal de Dilma Rousseff (Foto: infografia EPOCA)

Linguagem Corporal de Dilma Rousseff (Foto: infografia EPOCA)

O que Michel Temer quer

por Olga Curado

O presidente interino Michel Temer mostrou, em seu discurso inaugural, que gosta de falar e gosta de ouvir. Gosta de ser acionado, interrompido, gosta de mostrar que é “gente como a gente” e que ninguém precisa se afastar dele porque é presidente. Essa foi a mensagem que ele quis passar. Mas alto lá. Ele não consegue esconder que também gosta de mandar, de distribuir, de coordenar, de dar a direção. Ele mostrou também que quer resultados. Não vai olhar detalhes, vai cobrar respostas. Pode ser afavelmente autoritário. Não economizou em gestos de poder – para cima e para a frente.

Temer estava totalmente confortável com o ambiente, com o cenário e com a plateia. Essas mensagens chegavam pelas palmas das mãos sempre em evidência. Pontuou as falas com alegria – o dedo para cima indicando, apesar do cansaço, vitalidade – mesmo quando a voz falhou. O movimento de pescoço com o queixo baixo, olhando o discurso, mas sem perder o contato pessoal com o público chamou a atenção. Quis se mostrar acessível e próximo, embora a sua postura corporal, com o peito mais levantado, e o cabelo impecável sugiram o contrário.

O novo presidente, ainda que pairem sobre si grandes desafios que ele mesmo reconheceu no discurso, estava muito feliz. A sua linguagem não-verbal, o gestual, contrasta com a formalidade da postura. Temer escolheu a dedo o que vestir: terno preto, camisa branca e gravata prata, geralmente reservada para solenidades. Ao tocar a gravata enquanto falava, num gesto de autoafago, reconhecia em si mesmo a capacidade de fazer o que anuncia ser o seu objetivo.

A alegria de Temer, mal disfarçada, permeou todo o seu discurso. O semblante sereno mostrou otimismo. Ele transpareceu sentir-se pronto para presidir. Demonstrou a confiança de que vai conseguir fazer o que deseja. Houve mão aberta em profusão, o que evidenciou disposição para negociar o que for preciso. Os seus gestos em elevação indicaram uma certa intransigência em relação ao que quer. Não pretende convencer antes de decidir, mas deve decidir e então convencer. A sua linguagem não-verbal, o uso das mãos espalmadas, também mostrou que embora goste de mandar está disposto a receber o que vem de fora.

Quando falou da grave crise, fez o gesto  de quem está jogando algo fora. Quando descreveu o seu apreço pela Constituição. girou o dedo apontando para cima, reverenciando  o que chamou de “livrinho”. O dedo para cima também indica a confiança nos céus.

Temer vai tentar manter o autocontrole e não ser autoritário. Sinaliza com os gestos que quer a divisão de tarefas. Será cauteloso e decidido. Mas, ao cobrar respostas, pode perder a paciência e se mostrar surpreendentemente mandão. A palavra de estreia dele foi confiança – e toda a sua fala assegurou como ele se sente.

Análise Corporal Michel Temer (Foto: Infografia ÉPOCA)

Análise

 

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