Cotado para o Ministério do Planejamento, o senador diz que Michel Temer tem legitimidade para presidir o país porque o PMDB foi decisivo para eleger Dilma Rousseff

ANA CLARA COSTA
05/05/2016
ROMERO JUCÁ: 'Michel Temer não pode errar' (Foto: Diego Bresani/ÉPOCA)

ROMERO JUCÁ: ‘Michel Temer não pode errar’ (Foto: Diego Bresani/ÉPOCA)

 

Poucos são os que conseguem acompanhar os passos do senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima. Jucá é conhecido como “Ligeirinho”, pela rapidez na articulação de consensos e nas caminhadas pelo Senado. É um político astuto, que sabe a hora certa de transitar entre coalizões e sente o cheiro do fracasso de longe: de líder do governo no Senado até 2012, converteu-se em um dos peemedebistas mais críticos à gestão de Dilma Rousseff bem antes do agravamento das crises econômica e política. Diz que há pelo menos três anos diverge da forma como Dilma conduz a economia. “Não apoiei o PT em 2014 porque discordava da condução econômica, da gestão desastrada”, diz. É grande a probabilidade de Jucá comandar o Ministério do Planejamento caso Michel Temer assuma a Presidência da República (leia mais a partir da página 28). Temer atribuiu a ele a difícil tarefa de negociar a formação de uma coalizão em um novo governo. Nesta entrevista a ÉPOCA, Jucá diz que haverá pouco espaço para fisiologismo nesses acordos – uma marca do PMDB. “A Lava Jato mudou o paradigma da construção política no Brasil”, afirma. Segundo Jucá, um eventual novo governo não atrapalhará a operação – que atinge o PMDB e ele próprio, que é um dos investigados.

 

ÉPOCA – O que o faz acreditar que um possível governo Temer poderá tirar o país do círculo vicioso em que está?
Romero Jucá –
 Ainda não há um governo Temer e eu não recebi convite para integrá-lo. Mas, como economista que há três anos aponta para uma direção contrária à do governo, tenho propriedade para apontar questões que devem ser solucionadas caso Temer assuma. Não apoiei o PT em 2014 porque discordava da condução econômica, da gestão desastrada. Caberá ao Temer, caso assuma, reverter esse quadro, trabalhando quatro pilares que se retroalimentam: a recuperação da credibilidade, da segurança jurídica, da previsibilidade e da base política. A credibilidade foi minada a tal ponto que o mercado operava na direção contrária aos números divulgados pelo governo. Quando um empresário se vê obrigado a calcular o próprio cenário porque o governo não apresenta números críveis, ele acaba se tornando muito mais cauteloso. A falta de segurança jurídica, com o rompimento de contratos, também impacta na fuga do investimento e resulta em mais descrédito. Por último, a desestabilização da economia acarretou em desarranjo político e a base de apoio se corroeu. Quem vai investir numa economia ancorada numa política instável, com um governante que não consegue governar ou periga cair?

ÉPOCA – Que ações podem ajudar a reverter rapidamente as expectativas?
Jucá –
 Cortar gastos tem de ser o primeiro passo. Mas isso depende do diagnóstico que será feito do orçamento da União. Ajustar a legislação dos setores de forma a tornar concessões e PPPs (Parcerias Público-Privadas) atrativas é essencial. Não dá para o crescimento do país depender do investimento direto do governo. E começar a discutir a reforma da Previdência junto com a sociedade é imprescindível. O exemplo mundial nos diz que não cuidar da Previdência pode ter efeitos muito duros no futuro. A Grécia teve de cortar 35% dos salários dos aposentados. O Brasil não chegou a esse ponto e tem tempo para agir e evitar essa situação dramática.

ÉPOCA – O ministro Nelson Barbosa tentou emplacar a reforma sem sucesso no Congresso. Por que com um governo do PMDB seria diferente?
Jucá –
 A reforma era a intenção de alguns economistas do governo, mas não era prioridade. O próprio PT era contra. Jamais ela andaria se não houvesse consenso. Com um novo cenário, a leitura dos setores econômicos será feita rapidamente e abrirá espaço para a discussão de reformas mais profundas. O que acontece na Argentina é exemplo disso. O país estava em situação de descrédito total. As medidas pontuais feitas no câmbio por Mauricio Macri deram novo encaminhamento a tudo. Macri não resolveu nenhum problema estrutural até o momento. Mas a Argentina, hoje, está com risco país menor que o Brasil. Isso é absurdo quando se pensa que as reservas internacionais deles são equivalentes a uma fração mínima da nossa. Macri tem um discurso moderno, enquanto o Brasil se alinhou com o que havia de mais atrasado na América do Sul. O importante, se Michel assumir, será conduzir um governo sem amarras ideológicas, assim como Macri.

ÉPOCA – Aumentar impostos está no cardápio de um governo Temer?
Jucá –
 Primeiro tem de cortar gasto, dar exemplo. Qualquer esforço tributário precisa ser precedido de exemplo para que as pessoas não entendam que o governo gasta mal enquanto elas são penalizadas. Isso não se sustenta economicamente nem politicamente. E tem mais: num período de depressão como o que vivemos, aumentar impostos não é necessariamente aumentar arrecadação, e sim diminuir. Se você extrapola a capacidade de pagamento de impostos, as pessoas deixam de pagar tudo. Você cria uma situação de inadimplência que só penaliza ainda mais a arrecadação.

ÉPOCA – Como explicar a quem foi para a rua que não será possível uma melhora em dois anos?
Jucá –
 As pessoas sabem que não dá para mudar o mundo em dois anos. O que dá para fazer é uma mudança de tendência que dê resultado. O governo do Michel, se existir, será de curto espaço de tempo. Esse período é suficiente para começar um processo, e que ele apresente resultados que resultem em uma espiral positiva. O país não aguenta esperar um governo de quatro anos para fazer as mudanças. Todos os dias empresas fecham, pessoas perdem emprego.

ÉPOCA – Por não ter a legitimidade do voto, o vice será mais cobrado a dar resultado rápido?
Jucá –
 O vice foi eleito junto com a presidente, numa chapa. Isso é legitimidade. Além disso, a eleição foi muito apertada. O PMDB foi essencial para a vitória dela. Demos tempo de TV, elegemos sete governadores e a maior bancada de deputados federais. Por outro lado, não formulamos a política econômica nem a estratégia política. Ficamos apenas com ministérios setoriais. Onde ela mais foi criticada, não tivemos poder decisório. Se a popularidade de Michel é baixa, é porque foi contaminado por ela.

ÉPOCA – Onde Michel Temer não pode errar?
Jucá –
 É bom que não erre em nada. Ele não sairia do zero, mas com um passivo enorme de dificuldade econômica, política, revolta da população. A fase agora é de tirar água do navio, não criar mais um rombo. Michel tem o temperamento necessário para esse momento. É equilibrado, experiente na política. Tem o discernimento para essa transição.

ÉPOCA – Temer tem interagido com partidos conhecidos pelo fisiologismo. Em que isso difere do balcão de negócios que o governo Dilma montou?
Jucá – 
A Lava Jato mudou o paradigma da construção política no Brasil. Mudou a relação entre empresas, partidos e candidatos, o sistema de financiamento, o sistema de posicionamento para o futuro. O processo de impea­chment mostrou que a oferta de cargos por si só não se sustenta. O governo tentou negociar nomeações, buscar um terço da Câmara e não conseguiu. Estou fazendo a interlocução com os partidos. Não estamos discutindo cargos. É legítimo até que partidos participem do governo. Mas o que deve presidir essa construção é a pactuação de um programa de metas e ações que serão definidas pelos partidos. O PSDB vai entregar sua pauta, o DEM também. Outros partidos estão preparando. A ideia é que a gente possa mandar uma proposta e os partidos assinarão isso como compromisso dessa nova base política. A partir daí se começa a discutir espaços. O Henrique Meirelles é do PSD e José Serra do PSDB. São nomes políticos e técnicos. A indicação política não pode ser tachada como pejorativa. Pelo contrário: temos de qualificar a política, não demonizá-la. Sem política, não tem solução democrática.

ÉPOCA – Integrantes do PMDB e de partidos dessa base são citados na Lava Jato. Como Temer convencerá a população de que não vai interferir na Lava Jato?
Jucá – 
A Lava Jato é fundamental, o PMDB apoia, quer que as ações se desenrolem o mais rapidamente possível. É uma operação da Justiça, independente, e que deve permanecer como tal. Agora, a melhor sinalização é a da prática. Um novo governo tem de respaldar as ações da Polícia Federal e do Ministério Público, para que eles possam aprofundar com rapidez as investigações, e também para separar o joio do trigo. Quem tiver de ser penalizado, que seja. Os que tiverem de ser liberados, que sejam. O que não dá é ter uma nuvem negra sobre toda a classe política do Brasil porque alguém citou ou alguém insinuou.

 

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