João da Silveira

14/02/2016

 

Dilma (Michel) na Segunda Semana de Fevereiro

Semana tranquila. Até terça-feira foi carnaval; o Brasil sob o império de Momo. Na quarta-feira, cinzas, apurou-se os desfiles das escolas de samba, Momo ainda imperante. Na quinta voltamos ao império de Dilma e quem pareceu em apuros foi Lula, o puro, criador da presidenta (sic), acossado por procuradores empenhados em esclarecer tudo que é traficância dele em Guarujá, em Atibaia, em Brasília, na Angola, em Cuba, no Panamá e alhures.

Dias tranquilos, mas o espectro do impeachment paira no ar. É preciso evitar que o TSE leve em consideração as provas da Lava Jato, que são muitas. São provas emprestadas de outro processo, advindas de Moro, o implacável, o falamansa. Temer, o cordial, irmanou-se com Dilma no TSE. Já o antipático do Jucá disse (no Estadão) que nada está morto na política; o assunto impeachment esfriou, mas pode esquentar de uma hora para outra. Todo cuidado é pouco. Jucá articula a união entre a bancada do PMDB no Senado e o vice-presidente Michel Temer. Isso não é bom para Dilma. Bom para Dilma é o racha entre Temer e Renan, racha entre Temer e o Senado. Se o PMDB se une em torno de Temer, Temer pode adquirir ânimo e romper com Dilma, o que a fragilizaria e facilitaria seu impeachment. . .

Dilma reuniu-se na quinta com os ministros da área econômica e viram, juntos, que o modesto superávit primário de meio por cento do Produto Interno Bruto, estabelecido por eles mesmos para este ano, não passa de uma ilusão e que nem vale a pena manter essa ilusão (Valor). A saída para o governo vai ser mesmo pela inflação (calote disfarçado e generalizado na população), e aumento de impostos (assalto direto à classe média e aos pobres que têm que comer). . . O desânimo é quase completo nessa crise moral, em especial na gente da indústria (Folha), o setor que mais sofre. Tudo anda tão negativo. . . a inflação cresce. . . a arrecadação cai. . . o Aedes aegypti, a dengue, o Zika. . . . Per’aí!

O Zika, a dengue, o Aedes, “só um mosquito!” Dilma vê luz. Eis a oportunidade para uma agenda positiva: a guerra ao Aedes e à sua picadura, uma demonstração de que ela realmente governa. Vladimir da Rússia tem sua guerra contra a OTAN em duas frentes, uma na Ucrânia e outra na Síria, e sua popularidade anda nas alturas. Vladimir tem também uma crise econômica, como Dilma, mas não tem uma crise política, nem uma crise moral, como Dilma. Então é isso: na sexta, Dilma foi ao Rio e, do sítio das Olimpíadas (unindo o útil ao agradável), declarou guerra ao Aedes aegypti.

Foi também a São Paulo, para reunir-se com Lula, o injustiçado, o perseguido, para ajudar moderadamente na sua defesa. Os dois não se toleram mais, mas não podem se afastar. A sorte deles é uma só: juntos sobreviverão, juntos cairão. O PT fará a defesa mais enérgica, com militância nos lugares certo, como no Fórum de Barra Funda. Dilma convoca o povo e as Forças Armadas para a guerra. Ela só erra na formulação quando diz “É só um mosquito!” ou “Um mosquito não pode derrotar uma nação!” Ora, não é só um mosquito; são milhões, bilhões, zilhões. . . que dizem ser veículo, no Brasil, do terror terrífico da microcefalia.

Vladimir na Segunda Semana de Fevereiro

Nos primeiros dias de fevereiro, o Exército Árabe da Síria liberou do cerco dos jihadistas as pequenas comunidades de Nubl e de Zahra, o que importou no fechamento do corretor de apoio da Turquia aos mesmos jihadistas que até então sitiavam Aleppo, conhecido como o corredor de Azaz. O fechamento do corredor inverteu os papeis dos combatentes: os sitiantes passaram agora a sitiados.

A consequência desse fato nos países da OTAN foi o reconhecimento de êxito da estratégia de Putin e de Assad, mas um reconhecimento acompanhado de enorme irritação e belicosidade. Seus rebeldes abandonaram as negociações de paz que o secretário de estado John Kerry vinha conduzindo freneticamente na tentativa de congelar uma situação ainda avançada dos rebeldes e jihadistas. Compostos de bandos heterogênicos, não compreenderam a esperteza da manobra de Kerry e acabaram sendo duramente repreendidos por ele.

E a hipocrisia desses países veio à tona, pois seu objetivo não está realmente no combate ao terror mas no jogo com o terror para a derrubada de Bashar al-Assad, a fragmentação da Síria, a derrota ao Irã. Turquia e Arábia Saudita mostraram-se as mais iradas, mobilizando armas e tropas, se dizendo prontas para invadir a Síria, combater o ISIS e tomar o território ocupado por ele, isso desde que sob o comando dos Estados Unidos, que são o líder inconteste da Grande Coalizão, o Império.

Acontece, porém, que o Império é todo poderoso e joga em muitas posições; ele faz parceria com todos e qualquer um de acordo com suas conveniências; entre suas conveniências, todavia, não está uma guerra contra a Rússia apenas por causa das vontades de uma Arábia Saudita e de uma Turquia; os ultimatuns do frustrado Erdogan a Obama provam isso; o acordo nuclear com o Irã contra a vontade da Arábia Saudita e de Israel é mais uma prova disso; aliás, o Império pode até mesmo cooperar com a Rússia na Síria, guardadas as aparências e os interesses, pois muitos são os caminhos que podem levar de A a B.

Putin, por sua vez, tem-se mostrado um exímio intérprete da metafísica dos países em contenda.  Na metafísica estão todas as mentiras e todas as verdades com que se joga na política e na guerra. E Putin, exímio enxadrista, tem calculado bem o valor de cada peça e a retórica de cada jogador, e por isso mesmo vai mantendo seu curso, sua calma e iniciativa em meio a tantas ameaças e perigos. Sobre o que Rússia pode fazer nas circunstância, veja aqui. Sobre a urgência de Obama e Kerry de promover a paz, veja aqui. Sobre a histeria, o jogo sujo, a trapaça, veja aqui. Porque a Síria não será o atoleiro de Putin, veja aqui. Sobre a iminência de escalação na guerra, veja aqui.