Reinaldo Azevedo

01/04/2016

Adoraria estar a travar outro debate com o PT, distante de uma delegacia de polícia. Sou crítico da turma há muito tempo. Criei o termo “petralha” quando a legenda estava no poder em Santo André, antes ainda de Celso Daniel ser assassinado

 

Mas nem eu imaginava que os “companheiros” pudessem chegar tão longe na profissionalização do assalto aos cofres públicos. Eu preferiria estar aqui a debater com petistas, por exemplo, se precisamos mesmo de uma Petrobras majoritariamente estatal.

Na minha fantasia, a empresa não é um valhacouto. Ao contrário. É exemplarmente administrada por burocratas imbuídos da missão de demonstrar a superioridade gerencial do Estado e de provar quão falaciosa é a ideia de que é o lucro que conduz à excelência técnica. Essa Petrobras poderia melhorar o meu combate porque me obrigaria a enfrentar argumentos difíceis.

Em vez disso, tenho de me haver com vagabundos, desclassificados e chicaneiros. O maior mal que o PT faz a seus adversários é lhes fornecer motivos de rejeição tão tristemente mundanos.

O petismo nos impede de debater economia política e nos remete para a briga de rua. O partido empobrece a retórica. Não me refiro àqueles discursos pastosos dos que falam para esconder o que pensam. Trato aqui da retórica virtuosa, que pode alcançar um lugar inédito do pensamento à medida que é obrigada a se desenvolver para enfrentar a qualidade do outro.

Se não forem nossos adversários a nos melhorar, quem o fará? Os amigos tendem, felizmente, a nos conduzir por caminhos docemente viciosos. A amizade, como o amor de Guimarães Rosa, há de ser um descanso na loucura. Gostamos das pessoas, às vezes, porque são um pouco tortas, né?

É dos adversários, nas questões de natureza pública, que cobramos a retidão. É o certo. A sua razão de ser é nos levar a desenvolver armas retóricas de precisão para atingir com mais eficiência os nossos alvos, as nossas pretensões. Confessem: às vezes gostamos de pensar que aqueles que combatemos são um pouco melhores do que são só para que não nos sintamos também miseráveis.

Olhem a que fomos reduzidos. O artigo assinado pelo ator Wagner Moura, na Folha desta quarta (30), teve ao menos uma virtude: expôs, até com certa candura, a moral degenerada de amplos setores da esquerda. O rapaz admite que o PT se ampara num esquema criminoso, mas considera, com argumentação jurídica canhestra, que impeachment é golpe.

Segundo o autor, o que está em curso, na verdade, é um surto moralista dos que não aceitam o resgate da dívida social que o PT teria empreendido. O corolário da tese do sr. Moura é que só esquerdistas teriam o direito de combater os roubos do PT.

Repete, agora no terreno do assalto puro e simples, a argumentação de seguidas gerações de intelectuais de esquerda que se negavam, no século passado, a reconhecer os crimes do stalinismo porque isso corresponderia a agredir as ditas esperanças da classe operária, de que o Partido Comunista seria monopolista.

Eu lhes dedico um trecho do “Ultimatum”, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), escrito em 1917, no ano da revolução bolchevique: “Passai, radicais do Pouco, incultos do Avanço, que tendes a ignorância por coluna da audácia (…) [passai] socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar! Rotineiros da revolução, passai!”

 

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