Mês: agosto 2017

O Projeto (9)

Contra a Unipolaridade   João E. da Silveira 07/08/2017   Os Estados Unidos, a propósito, enveredaram pela trilha unipolar como já vimos, convencidos da sua superioridade, da sua excepcionalidade, da sua modalidade exemplar. Superioridade, excepcionalidade e bonitezas mil lhes davam a prerrogativa de conduzir o mundo para o caminho do bem. Bem que era, obviamente, eles mesmos, deles mesmos, o bem da Ordem Americana. Eles tanto gostaram da situação quanto se iludiram em se ver como o centro do mundo. Acontece que o centro não se segura, já tinha dito o poeta W. B. Yeats no entre guerras. E nós ainda não temos um centro, acrescentou Kenneth Clark nos anos 70 com algum pessimismo, em seu famoso documentário sobre a civilização ocidental, sobre o “materialismo heroico” dessa civilização e sobre a falência intelectual e moral do marxismo, produto integral dessa civilização.[1] Assim íamos nos entendendo até que Bill, George e Barack foram alçados ao poder e acharam que não, sim, os Estados Unidos eram mesmo o centro do Universo. Do governo de Bill Clinton (1993-2001) até o de Barack Obama (2009-2017), passando pelo de George W. Bush (2001-2009), os Estados Unidos praticaram uma política externa de promoção da democracia e de regime change com vistas a fazer o mundo à sua imagem e semelhança, no exercício de todo o seu vigor imperial. Uma política bi-partidária unipolar. A descrição mais...

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O Projeto (8)

O Programa Doutrinário do PMDB e a Constituição Mista   João E. da Silveira 07/08/2017   Em 1993-4, quando assumimos a coordenação dos trabalhos para a renovação do programa doutrinário do PMDB, nós nos guiamos pela lógica da Constituição Mista. Assim, na seção 2.6.3 do Programa fizemos um esboço da evolução política do Brasil, com referência explícita à “luta perene” entre maiorias e minorias, à política qua política. Lá está escrito: “Houve, no primeiro estágio [do Brasil politicamente independente] ao longo do século XIX, o predomínio da monarquia imperial fundada na hegemonia da aristocracia sobre a oligarquia.[1] No segundo estágio [da evolução politica do Brasil] ao longo deste século XX, houve o predomínio da república oligárquica, sem império, mas fundada no conluio entre oligarcas e aristocratas, para controle dos democratas emergentes [irrequietos].”[2] E o parágrafo fecha com o seguinte vaticínio: “No terceiro estágio, poderá realizar-se finalmente, no século XXI, o predomínio da república democrática.” Note-se que o vaticínio não aponta o PMDB como o partido que capitanearia a implementação da hegemonia democrática no século XXI. Por que não logo no programa do Partido do Movimento Democrático Brasileiro? Primeiro, há que se notar que não estávamos numa veia propagandística ou marqueteira. Um marqueteiro diria, sim, que aquela era a missão do partido. Não éramos marqueteiros; éramos theorós, observadores equidistantes do cenário político. Não estávamos em veia propagandística, mas em veia...

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O Projeto (6)

Multipolaridade: PMDB, PSDB, PT, PMDB   João E. da Silveira 07/08/2017   Em 1989, depois de 16 anos antropológicos e não antropofágicos nos Estados Unidos, retornei ao Brasil com a tese de que, para o desenrolar da contenda interamericana (antecipada por Hegel), o país chave não era Cuba nem a contenda era capitalismo vs. socialismo, mas, realisticamente falando, era capitalismo vs. capitalismo. O socialismo então existente dava nome ao chamado Segundo Mundo; aquele mundo era um sonho, uma fantasia, um artifício, um engodo na boca de políticos inescrupulosos como fora o georgiano Joseph Stalin. O que existia de fato era e é o capital, ou seja, são as relações de produção e de troca. Isso posto, o país chave para o fruir da contenda interamericana deixava de ser Cuba com seu rijo capitalismo de Estado e sua pequena envergadura caribenha e passava a ser o Brasil com toda a sua envergadura continental sul-americana e seu conservadorismo. Escala não é tudo, mas importa. Conservadorismo não é revolução, mas importa também. Em dezembro de 1991, caiu a União Soviética. A ideia socialista arrefeceu (esfriou) mundo afora, abrindo-se mais espaço para se falar de contendas do tipo capitalismo vs. capitalismo. Deixamos de lado, portanto, a ideia do socialismo e a substituímos pela ideia mais objetiva de que o mundo político é realmente multipolar, porque várias são as constituições elementares e vários os Estados...

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O Projeto (5)

Fim da União Soviética   João E. da Silveira 07/08/2017   Em dezembro de 1991, os presidentes das repúblicas eslavas Boris Yeltsin da Rússia, Leonid Kravchuk da Ucrânia e Stanislav Shushkevich da Bielorússia encontraram-se na Floresta Belovezh e decretaram o fim da União Soviética. No fundo foi mesmo Yeltsin o grande responsável por tal decreto, pois sem ele não haveria o encontro na floresta. Reagan e Gorbachev tinham preparado o terreno com a suspensão da Guerra Fria. Os russos, naquele afã secular de emular e superar os Estados Unidos, viram chegada a hora de extinguir o sistema soviético, excessivamente burocrático e duro. Adotaram pouco depois um programa urgente de privatizações, em busca da condição mais flexível e mais dinâmica de uma sociedade burguesa aberta. Assim, a União Soviética acabou-se por decreto, por decisão de seus próprios dirigentes. O decreto de dezembro de 1991 foi aprovado em janeiro de 1992 pelo parlamento russo, a Duma, a mesma Duma que Yeltsin extinguiria no ano seguinte com tiros de canhão… O mundo logo achou que os Estados Unidos foram o grande vitorioso da Guerra Fria – dessa peculiar modalidade de guerra entre potências nucleares equivalentes. Acaba que foi mesmo uma vitória bastante peculiar, pois, se nas guerras convencionais (não nucleares) os vitoriosos desarmam por via de regra os vencidos, nessa “vitória” os americanos sequer pensaram em desarmar os russos. Pelo contrário, os...

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O Projeto (4)

Filosofia da História Mundial   João E. da Silveira 06/08/2017   Nos anos 1960 e 1970, acompanhei a guerra do Vietnã e a revolução cubana. Nos anos 1970 e 1980, estudei a Rússia e os Estados Unidos. Fazia isso com o intuito de entender também a situação do Brasil. Em 1983, li na Filosofia da História de G. W. F. Hegel o seguinte trecho: “A América é portanto a terra do futuro, onde, nas eras vindouras, o peso da História do Mundo se mostrará – talvez numa contenda entre a América do Norte e a do Sul.”[1] Foi um choque, como um raio em céu azul, a leitura dessa frase, absolutamente inesperada dado o contexto da leitura. Com a frase a ribombar na cabeça, passei os anos 80 a buscar pelos sinais da tal contenda, sinais que se mostram latentes por toda parte, mas que nunca se realizam de fato. Por que não? Há algumas peculiaridades nas concepções de Hegel. Uma delas está na definição de ‘América do Sul’, onde Hegel incluía o México e excluía o Brasil. Ora, o México do tempo de Hegel incluía toda a Califórnia, o Texas e outros vastos territórios do que é, hoje, o sudoeste dos Estados Unidos. Portanto o México era e ainda é, para nós aqui da América do Sul, parte da América do Norte. Uma segunda peculiaridade é a de...

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