Autor: João

O Projeto (7)

A Política e a Constituição Mista   João E. da Silveira 07/08/2017   A Constituição Mista não é teoria de militante político, mas a de um theorós;[1] é a teoria de um observador equidistante, de um assessor técnico equânime, de um cientista político clássico formado na leitura dos clássicos, de um jurisconsulto que conheça bem tanto das leis positivas quanto da física humana, de um filósofo que domine os jogos e truques da linguagem. A Constituição Mista é a teoria do estadista, i.e., daquele que alia conhecimento com experiência prática e prudência.[2] O militante é elementar. A teoria do militante é aquela das formas elementares, porque o militante tem que se definir, tem que dizer de que lado está. O militante é um monarquista ou um oligarca ou um aristocrata ou um democrata; modernamente falando é um capitalista, ou um corporativista, ou um socialista, ou um comunista. Hoje, aliás, quase ninguém se diz oligarca ou aristocrata ou monarquista; quase todos se dizem democratas, porque vivemos na era da confusão democrática,[3] a era das feitiçarias da Ordem Americana. Acontece que as formas elementares são instáveis na prática e precisam umas das outras para se definirem e se estabilizarem. As formar elementares são os termos de um campo semântico; para se entender a física de cada uma delas, tem-se que entender todo o campo. A estável Constituição Americana, por exemplo, é...

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O Projeto (10)

A Civilização, a Guerra, os Negócios   João E. da Silveira 07/08/2017   Ao fim e ao cabo, a vontade política saudável tem a ver com a busca de civilização, e essa busca tem a ver com a acumulação de capital. A acumulação de capital, por sua vez, pode acontecer de várias maneiras: pela indústria, pelo roubo, pela conquista etc. Simplificando, a acumulação pode ser benigna ou maligna. A benigna é aquela que vem por meio dos negócios, da indústria, do doce comércio e do conhecimento científico; enquanto a maligna vem por meio da violência, da corrupção, das guerras e resulta muitas vezes na perda ou destruição de capital. A acumulação será tanto melhor quanto mais geral for. Sobre acumulação maligna, o caso mais exemplar e atual acha-se evidentemente nos EUA, a República Imperial de Raymond Aron, a Freedonia de Rufus T. Fireflys, a América superpotência indispensável de Barack Obama, que Gore Vidal chamou de Estados Unidos da Amnésia. Falando sério chistes à parte, existem mais de 800 bases militares espalhadas pelo Japão e Sudeste Asiático, Ásia central, Oriente Médio e Europa, África e Américas, tudo num cinturão de esforço para abraçar o mundo e ocupar o centro das atenções. Portanto, em matéria de poder e de força não se pode brincar com os Estados Unidos. Não se passa um dia sem que o POTUS (President Of The United...

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O Projeto (12)

Onde e Como Fica a União Europeia?   João E. da Silveira 07/08/2017   BRICS, RIIC, CIRUS, BRICUS ou BRICUSA são grupos concretos e cenários que se formam e se abrem neste momento no horizonte da multipolaridade global. Deve-se perguntar aqui: e a Europa? E a União Europeia? A Rússia é parte da Europa, mas a União Europeia exclui a Rússia. Mesmo depois do fim do projeto comunista, a União Europeia não foi capaz de acomodar a Rússia em seu seio. O Pacto de Varsóvia desapareceu, mas a OTAN continuou por força dos Estados Unidos. Em contrapartida, os BRICS excluem a UE assim como excluem os EUA. Acontece que, para os Estados Unidos serem parte do BRICS, transformando-o em BRICUS, basta o governo americano trocar o atual roteiro de unipolaridade de um Francis Fukuiama e um Zbigniew Brzezinski pelo roteiro da multipolaridade de um Henry Kissinger. Isso não significa que os Estados Unidos deixarão de ser lobo para ser cordeiro. Os Estados Unidos continuarão lobos na multipolaridade, tendo apenas que abandonar a postura do might makes right atual para jogar em consonância com as normas de paridade do direito internacional. A mesma possibilidade de passagem de um lado para outro não existe para a Europa ou para a União Europeia, razão pela qual ofereço o raciocínio seguinte. Os europeus ocidentais pensam que são um continente, quando na verdade são...

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O Projeto (9)

Contra a Unipolaridade   João E. da Silveira 07/08/2017   Os Estados Unidos, a propósito, enveredaram pela trilha unipolar como já vimos, convencidos da sua superioridade, da sua excepcionalidade, da sua modalidade exemplar. Superioridade, excepcionalidade e bonitezas mil lhes davam a prerrogativa de conduzir o mundo para o caminho do bem. Bem que era, obviamente, eles mesmos, deles mesmos, o bem da Ordem Americana. Eles tanto gostaram da situação quanto se iludiram em se ver como o centro do mundo. Acontece que o centro não se segura, já tinha dito o poeta W. B. Yeats no entre guerras. E nós ainda não temos um centro, acrescentou Kenneth Clark nos anos 70 com algum pessimismo, em seu famoso documentário sobre a civilização ocidental, sobre o “materialismo heroico” dessa civilização e sobre a falência intelectual e moral do marxismo, produto integral dessa civilização.[1] Assim íamos nos entendendo até que Bill, George e Barack foram alçados ao poder e acharam que não, sim, os Estados Unidos eram mesmo o centro do Universo. Do governo de Bill Clinton (1993-2001) até o de Barack Obama (2009-2017), passando pelo de George W. Bush (2001-2009), os Estados Unidos praticaram uma política externa de promoção da democracia e de regime change com vistas a fazer o mundo à sua imagem e semelhança, no exercício de todo o seu vigor imperial. Uma política bi-partidária unipolar. A descrição mais...

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O Projeto (8)

O Programa Doutrinário do PMDB e a Constituição Mista   João E. da Silveira 07/08/2017   Em 1993-4, quando assumimos a coordenação dos trabalhos para a renovação do programa doutrinário do PMDB, nós nos guiamos pela lógica da Constituição Mista. Assim, na seção 2.6.3 do Programa fizemos um esboço da evolução política do Brasil, com referência explícita à “luta perene” entre maiorias e minorias, à política qua política. Lá está escrito: “Houve, no primeiro estágio [do Brasil politicamente independente] ao longo do século XIX, o predomínio da monarquia imperial fundada na hegemonia da aristocracia sobre a oligarquia.[1] No segundo estágio [da evolução politica do Brasil] ao longo deste século XX, houve o predomínio da república oligárquica, sem império, mas fundada no conluio entre oligarcas e aristocratas, para controle dos democratas emergentes [irrequietos].”[2] E o parágrafo fecha com o seguinte vaticínio: “No terceiro estágio, poderá realizar-se finalmente, no século XXI, o predomínio da república democrática.” Note-se que o vaticínio não aponta o PMDB como o partido que capitanearia a implementação da hegemonia democrática no século XXI. Por que não logo no programa do Partido do Movimento Democrático Brasileiro? Primeiro, há que se notar que não estávamos numa veia propagandística ou marqueteira. Um marqueteiro diria, sim, que aquela era a missão do partido. Não éramos marqueteiros; éramos theorós, observadores equidistantes do cenário político. Não estávamos em veia propagandística, mas em veia...

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