Autor: João

O povo bestificado

Miguel Reale Júnior 02 Janeiro 2016 | 03h 00 – Atualizado: 02 Janeiro 2016 | 03h 00 O processo do impeachment deixou de ser a análise dos graves fatos praticados pela presidente e minudentemente expostos no pedido. Na imputação consta que houve a omissão ao não determinar a presidente a responsabilidade de subordinados, diretores da Petrobrás, ciente dos desmandos presentes na estatal, com infração ao artigo 9.º, item 3, da Lei n.º 1.079/50, que descreve conduta omissiva: “não tornar efetiva a responsabilidade dos seus subordinados, quando manifesta em delitos funcionais”. É comezinho poderem as condutas ser comissivas ou omissivas. Tipificam-se também infrações à Lei de Responsabilidade Fiscal, ao praticar ações que comprometeram a saúde financeira do País, levando à crise econômica de hoje, com 1,5 milhão de desempregados, inflação superior a 10% e perda do grau de investimento. Repita-se: ao recorrer por longo tempo, e em valores astronômicos, a empréstimos nos bancos oficiais para cobrir gastos do governo, não só em programas sociais, mas também para financiar grandes empresas com juros subsidiados, a presidente infringiu outro dispositivo da Lei do Impeachment, qual seja o descrito no artigo 10.º, 9: “ordenar ou autorizar, em desacordo com a lei, a realização de operação de crédito com qualquer dos entes da administração indireta”. O mais grave foi ter-se deixado de registrar a dívida de R$ 40 bilhões como despesa, incidindo em falsidade ideológica, pois...

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Contra Jabor: PSDB ≤ PT

  Caro Senador, Mas o regime político brasileiro, entendamos bem, não é uma democracia pura e simples. Na realidade, nosso regime é uma mistura de maiorias e minorias, de democracia com oligarquia, dos muitos e dos poucos, com toques aqui e ali de monarquia ou tirania ou do caos onde todos mandam e ninguém obedece. Por isso, não vale a pena desiludirmo-nos com nenhuma das constituições elementares, ou seja, nem com a monarquia, nem com a tirania, nem com a aristocracia, nem com a oligarquia, nem com a democracia, nem com a totalidade dos cidadãos, porque essas são formas que não existem por si mesmas. Elas só existem em conjunto, umas dando sentido às outras dentro do campo semântico da política. Ora, identificar FHC com a racionalidade é um reducionismo generoso demais. FHC não foi assim tão racional. Muitas das mazelas que se alargaram no governo Lula, tiveram início de fato ou existiram também no governo anterior, o do FHC. A reeleição, por exemplo. Lula, na verdade, exacerbou defeitos e virtudes de FHC. Essa parece uma tese mais defensável.   Abr.,...

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Jabor, FHC & Lula

  Caro Senador, Há quase 10 anos em junho de 2006, Arnaldo Jabor publicou uma coluna de gênio intitulada “Há Lulas que vêm para o bem”. A crônica começou tratando das decepções de tucanos e petista e da grande decepção porque passava o país, então e segundo Jabor, com a democracia. Ante tal decepção, Jabor ressalvou FHC nos seguintes termos: “FHC foi um parêntesis em nossa tradição presidencial, que agora volta [com Lula] ao formato secular. Ele [FHC] e nós [Jabor] nos desiludimos porque achávamos que a racionalidade seria bem recebida. Não foi.” Não obstante esse FHC, Jabor tem outras formulações de gênio. Exemplo: “Em nossa história, tudo vai devagar e só algumas migalhas frutificam. Nos últimos anos, tudo que aconteceu é muito mais o produto de influências econômicas externas e da espantosa resistência colonial do Atraso do que de nossos desejos políticos. Somos filhos bastardos de um progresso que não planejamos.” E aprendemos muito com o corte epistemológico, com o salto qualitativo que Roberto Jefferson provocou: “Todo o diagrama da direita do atraso ficou visível, quando Jeff abriu a cortina do bordel e nos mostrou a sacanagem sistemática que ocorria. Vimos a cara da fisiologia do Atraso e, também, de quebra, entendemos o absurdo dos métodos ‘revolucionários’ que o governo do PT adotara, na base dos ‘fins justificam os meios’. Entender o crime da direita e da esquerda...

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Dilma Rousseff

 Um feliz 2016 para o povo brasileiro   Dilma Rousseff 01/01/2016   O ano de 2015 chegou ao final e a virada do calendário nos faz reavaliar expectativas e planejar novas etapas e desafios. Assim, como sempre, nos traz a necessidade de refletir sobre erros e acertos de nossas decisões e atitudes. Este 2015 foi um ano muito duro. Revendo minhas responsabilidades nesse ambiente de dificuldades, vejo que nossos erros e acertos devem ser tratados com humildade e perspectiva histórica. Foi um ano no qual a necessária revisão da estratégia econômica do país coincidiu com fatores internacionais que reduziram nossa atividade produtiva: queda vertiginosa do valor de nossos principais produtos de exportação, desaceleração de economias estratégicas para o Brasil e a adaptação a um novo patamar cambial, com suas evidentes pressões inflacionárias. Tivemos também a instabilidade política que se aprofundou por uma conduta muitas vezes imatura de setores da oposição que não aceitaram o resultado das urnas e tentaram legitimar sua atitude pelas dificuldades enfrentadas pelo país. Mais do que fazer um balanço do que se passou, quero falar aqui da minha confiança no nosso futuro e reafirmar minha crença no Brasil e na força do povo brasileiro. Estou convicta da nossa capacidade de chegarmos ao fim de 2016 melhores do que indicam as previsões atuais. A principal característica das crises econômicas do Brasil, desde os anos 1950, é...

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Ex-operário, tradutor conclui trabalho com os ‘cinco elefantes’ de Dostoiévski

RODOLFO VIANA DE SÃO PAULO 30/12/2015  02h00 Fiódor Dostoiévski (1821-1881) estava morto havia 80 anos quando Paulo Bezerra, paraibano de Pedra Lavrada, o encontrou pela primeira vez. Na época, o nordestino radicado em São Paulo, então um militante de 21 anos do PCB (Partido Comunista Brasileiro), só tinha lido um livro na vida, “A Lã e a Neve”, do português Ferreira de Castro. Por sugestão de uma amiga do Partidão, resolveu, em 1961, encarar “Crime e Castigo” na tradução das edições francesa e espanhola feita por Rosário Fusco e publicada pela José Olympio. Fabio Teixeira/Folhapress Paulo Bezerra em seu apartamento no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro “Entendi muito pouco, mas fiquei fascinado com a história de Raskólnikov e o clima do romance”, lembra. Cinco anos depois, Bezerra imaginou, pela primeira vez, verter “Crime e Castigo” para o português direto do russo. Era um aluno de tradução da Universidade Estatal de Moscou, quando encontrou a mesma edição da José Olympio numa biblioteca. Aproveitou para cotejar com o original russo a versão de Rosário Fusco. “Foi impressionante: era como se autores diferentes contassem a mesma história, cada um a seu modo”, diz. Trinta e cinco anos depois do vislumbre foi lançada pela editora 34 a tradução de Bezerra para o clássico de 1866 –a primeira versão direta do russo publicada no Brasil. Ali começou a saga de verter diretamente da...

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